CagriSema: A Injeção Combinada com Ozempic ( EM ESTUDO)

Ilustração do CagriSema, combinação de cagrilintida e semaglutida, ao lado de uma caneta de Ozempic
Ilustração: o CagriSema combina cagrilintida e semaglutida, o princípio ativo do Ozempic.

CagriSema é uma injeção semanal para tratamento da obesidade, atualmente em investigação, desenvolvida pela Novo Nordisk. Ela combina dois princípios ativos: cagrilintida 2,4 mg, um análogo da amilina, e semaglutida 2,4 mg, a mesma molécula do Ozempic e do Wegovy.

No principal estudo de fase 3, o REDEFINE 1, adultos com obesidade ou sobrepeso perderam em média 20,4% do peso em 68 semanas. Com placebo, a perda foi de 3,0%.

No entanto, o medicamento ainda não foi aprovado. A FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, analisa o pedido de registro desde dezembro de 2025. No Brasil, não há registro na Anvisa.

CagriSema em resumo

  • Contra a semaglutida isolada: perda de peso de 20,4% com CagriSema e de 14,9% com semaglutida 2,4 mg, no estudo REDEFINE 1.
  • Contra a tirzepatida 15 mg (Mounjaro): 20,2% com CagriSema e 23,6% com tirzepatida, no estudo REDEFINE 4.
  • Em pessoas com diabetes tipo 2: perda média de 13,7% do peso, no estudo REDEFINE 2.
  • Efeitos colaterais mais comuns: náuseas, constipação e vômitos, em geral leves a moderados.
  • Decisão da FDA: esperada para o quarto trimestre de 2026.

Os percentuais de perda de peso consideram todos os participantes, inclusive os que interromperam o tratamento.

O que é o CagriSema?

CagriSema é o nome da combinação em dose fixa de cagrilintida 2,4 mg e semaglutida 2,4 mg. A aplicação é subcutânea, uma vez por semana.

A semaglutida você provavelmente já conhece. Afinal, é o princípio ativo do Ozempic, usado no diabetes tipo 2, e do Wegovy, usado na obesidade. Ela pertence à classe dos agonistas do receptor de GLP-1.

A cagrilintida é a parte nova. Trata-se de um análogo de longa duração da amilina, hormônio que o pâncreas libera junto com a insulina depois das refeições. A amilina avisa o cérebro de que já comemos o suficiente. A cagrilintida, porém, ainda é uma molécula experimental, sem aprovação como medicamento.

As duas agem em receptores diferentes, e por isso os efeitos se complementam.

Como funciona o CagriSema

A combinação reduz a fome por dois caminhos hormonais.

A semaglutida ativa os receptores de GLP-1 no pâncreas e no cérebro. Como resultado, o apetite diminui, o estômago esvazia mais devagar e a liberação de insulina aumenta quando a glicose sobe.

A cagrilintida, por outro lado, imita a amilina. Ao ativar os receptores de amilina no cérebro, ela faz a saciedade chegar mais cedo e durar mais. O esvaziamento do estômago também fica mais lento, por um mecanismo próprio.

Infográfico do mecanismo de ação do CagriSema: semaglutida no receptor de GLP-1 e cagrilintida no receptor de amilina
Mecanismo de ação do CagriSema: semaglutida (GLP-1) e cagrilintida (amilina).

Somados, os dois efeitos tendem a reduzir o apetite mais do que cada molécula sozinha. Nos estudos, isso se traduziu em mais perda de peso do que com a semaglutida isolada ou com a cagrilintida isolada.

Resultados dos estudos com CagriSema

O programa de fase 3 em obesidade se chama REDEFINE. O estudo principal, REDEFINE 1, acompanhou 3.417 adultos com obesidade ou sobrepeso, sem diabetes, por 68 semanas. A tabela mostra a perda de peso em cada grupo.

GrupoPerda média de pesoPerda com adesão completaPerderam 25% do peso ou mais
CagriSema20,4%22,7%40,4%
Semaglutida 2,4 mg14,9%16,1%16,2%
Cagrilintida 2,4 mg11,5%11,8%6,0%
Placebo3,0%2,3%0,9%

Fonte: Garvey e colaboradores, New England Journal of Medicine, 2025, e comunicado da Novo Nordisk de dezembro de 2024. A segunda coluna considera todos os participantes, inclusive os que interromperam o tratamento. As duas últimas, em contrapartida, estimam o resultado caso todos tivessem seguido o tratamento até o fim.

Nessa mesma estimativa, 60,2% dos participantes que usaram CagriSema perderam 20% do peso ou mais.

Em pessoas com diabetes tipo 2

O REDEFINE 2 incluiu 1.206 adultos com diabetes tipo 2 e obesidade ou sobrepeso. Em 68 semanas, a perda média de peso foi de 13,7% com CagriSema e de 3,4% com placebo. Além disso, 73,5% dos tratados chegaram a uma hemoglobina glicada de 6,5% ou menos, contra 15,9% no grupo placebo.

Já o REIMAGINE 2, com 2.713 participantes, comparou a combinação com a semaglutida 2,4 mg no diabetes tipo 2. A hemoglobina glicada caiu 1,91 ponto percentual com CagriSema e 1,75 com semaglutida. A diferença é pequena, mas estatisticamente significativa.

Antes disso, um estudo de fase 2 com 92 pessoas com diabetes tipo 2 já apontava na mesma direção. Em 32 semanas, a perda de peso foi de 15,6% com CagriSema e de 5,1% com semaglutida.

Composição corporal

Um subgrupo de 252 participantes do REDEFINE 1 fez avaliação de composição corporal. Com CagriSema, a massa gorda caiu 35,7% e a massa magra, 14,4%. Com placebo, as quedas foram de 5,7% e 4,3%. Ou seja, parte do peso perdido é massa magra. Sobre esse tema, veja o texto sobre obesidade sarcopênica.

CagriSema, Mounjaro ou Ozempic: qual emagrece mais?

Contra a semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, o CagriSema leva vantagem. No REDEFINE 1, a perda de peso foi de 20,4% com a combinação e de 14,9% com a semaglutida 2,4 mg. Da mesma forma, um estudo feito no Japão e em Taiwan, o REDEFINE 5, encontrou 18,4% e 11,9%.

Contra a tirzepatida (Mounjaro), contudo, o resultado foi outro. O REDEFINE 4 comparou diretamente CagriSema e tirzepatida 15 mg em 809 adultos com obesidade, durante 84 semanas. Considerando todos os participantes, a perda de peso foi de 20,2% com CagriSema e de 23,6% com tirzepatida. Considerando adesão completa, 23,0% e 25,5%. O estudo pretendia mostrar que o CagriSema não é inferior à tirzepatida, mas não conseguiu.

Existe um resultado favorável ao CagriSema, porém com doses menores. No REIMAGINE 5, em pessoas com diabetes tipo 2, a dose de 1,0 mg/1,0 mg levou a 12,4% de perda de peso em 60 semanas. Com tirzepatida 5 mg, a menor dose de manutenção, a perda foi de 9,1%.

Esses dois últimos resultados vêm de comunicados da Novo Nordisk. Uma meta-análise em rede publicada em 2026 no BMJ Medicine, com 58 estudos em adultos sem diabetes, também colocou a tirzepatida à frente. A perda de peso em relação ao placebo foi de 22,1% com retatrutida, 19,3% com tirzepatida e 17,3% com CagriSema. Ainda assim, os intervalos de confiança se sobrepõem em algumas comparações.

Para comparar os dois medicamentos já disponíveis no Brasil, veja Ozempic ou Mounjaro: qual é melhor para emagrecer?

Efeitos colaterais do CagriSema

Os efeitos adversos mais comuns são gastrointestinais. No REDEFINE 1, eles ocorreram em 79,6% dos participantes que usaram CagriSema e em 39,9% dos que receberam placebo. Os mais frequentes foram náuseas (55%), constipação (30,7%) e vômitos (26,1%). Em geral, foram leves a moderados e passageiros.

Por causa de efeitos adversos, 6,0% dos participantes do grupo CagriSema interromperam o tratamento, contra 3,7% no grupo placebo.

Além disso, nem todos chegaram à dose máxima. Ao fim de 68 semanas, 57,3% dos participantes estavam na dose máxima de CagriSema. O protocolo permitia ajustar a dose ao longo do estudo.

Como o medicamento ainda não tem bula aprovada, as contraindicações e precauções oficiais só serão conhecidas depois do registro. Sobre os medicamentos da classe que já estão no mercado, veja canetas emagrecedoras e interação com outros medicamentos.

Para quem a combinação poderá ser indicada

Hoje, fora de pesquisa clínica, para ninguém, porque não há aprovação.

O pedido enviado à FDA é para adultos com obesidade, ou com sobrepeso e pelo menos uma doença relacionada ao peso. Em todos os casos, o uso seria associado a dieta e atividade física. No REDEFINE 1, isso correspondeu a IMC a partir de 30, ou a partir de 27 com alguma complicação.

Se a aprovação vier, é provável que a combinação seja considerada principalmente em três situações:

  • obesidade grave (IMC ≥ 35) ou com complicações como diabetes tipo 2, apneia do sono e doença cardiovascular;
  • resposta parcial ou platô depois de 6 a 12 meses com um agonista de GLP-1 isolado, como Ozempic ou Wegovy;
  • diabetes tipo 2 em que é preciso perder bastante peso e, ao mesmo tempo, melhorar a glicemia.

Essas situações são projeções a partir do mecanismo de ação e dos estudos disponíveis. Portanto, a indicação real dependerá da bula aprovada e de avaliação médica individual.

CagriSema já foi aprovado? Quando chega ao Brasil?

Ainda não foi aprovado, e não há data para o Brasil. A linha do tempo até outubro de 2026 é esta:

  • Junho de 2025: os estudos REDEFINE 1 e REDEFINE 2 saem no New England Journal of Medicine.
  • 18 de dezembro de 2025: a Novo Nordisk anuncia o envio do pedido de registro à FDA.
  • Fevereiro de 2026: a empresa divulga o REDEFINE 4, a comparação com a tirzepatida.
  • Quarto trimestre de 2026: período em que a Novo Nordisk espera a decisão da FDA.

No Brasil, o CagriSema não tem registro na Anvisa. Geralmente, o registro brasileiro vem depois da decisão americana. A tirzepatida, por exemplo, foi aprovada pela FDA em maio de 2022 e registrada na Anvisa em setembro de 2023.

Sem registro, o medicamento não pode ser vendido no país. Por isso, desconfie de qualquer oferta de CagriSema ou de cagrilintida: não há como garantir procedência nem qualidade.

Perguntas frequentes

O CagriSema é o mesmo que Ozempic?

Não, porque o Ozempic contém apenas semaglutida. Já o CagriSema soma à semaglutida um segundo princípio ativo, a cagrilintida, que age nos receptores de amilina.

Quanto peso se perde com CagriSema?

No REDEFINE 1, a perda média foi de 20,4% do peso em 68 semanas, ou seja, cerca de 20 kg para uma pessoa de 100 kg. Em pessoas com diabetes tipo 2, a média foi de 13,7%. São médias de estudo, e por isso a resposta individual pode ser maior ou menor.

CagriSema é melhor que Mounjaro?

Em perda de peso, os dados atuais dizem que não. De acordo com o REDEFINE 4, que comparou as doses máximas, a tirzepatida 15 mg levou a 23,6% de perda e o CagriSema, a 20,2%.

Quanto vai custar?

Ainda não há preço, pois o valor só será definido depois da aprovação e do lançamento em cada país.

Dá para comprar CagriSema no Brasil?

Não, porque o medicamento não tem registro na Anvisa e não é vendido em farmácias. Por enquanto, o acesso acontece apenas dentro de estudos clínicos.

Referências

  1. Garvey WT, et al. Coadministered cagrilintide and semaglutide in adults with overweight or obesity (REDEFINE 1). N Engl J Med. 2025;393(7):635-647. doi:10.1056/NEJMoa2502081
  2. Davies MJ, et al. Cagrilintide-semaglutide in adults with overweight or obesity and type 2 diabetes (REDEFINE 2). N Engl J Med. 2025;393(7):648-659. doi:10.1056/NEJMoa2502082
  3. Frias JP, et al. Efficacy and safety of co-administered once-weekly cagrilintide 2·4 mg with once-weekly semaglutide 2·4 mg in type 2 diabetes: a multicentre, randomised, double-blind, active-controlled, phase 2 trial. Lancet. 2023;402(10403):720-730. doi:10.1016/S0140-6736(23)01163-7
  4. Yamauchi T, et al. Efficacy and safety of co-administered cagrilintide and semaglutide versus semaglutide alone in adults with overweight or obesity with or without type 2 diabetes in Japan and Taiwan (REDEFINE 5). Lancet Diabetes Endocrinol. 2026;14(6):450-462. doi:10.1016/S2213-8587(25)00402-4
  5. Buse JB, et al. Cagrilintide-semaglutide (CagriSema) versus semaglutide or cagrilintide in people with type 2 diabetes (REIMAGINE 2). Lancet Diabetes Endocrinol. 2026;14(8):662-677. doi:10.1016/S2213-8587(26)00125-7
  6. Chen D, et al. Comparative efficacy and safety of glucagon-like peptide 1 based drugs for weight loss in adults with overweight or obesity without diabetes: network meta-analysis of randomised controlled trials. BMJ Med. 2026;5(1):e003026. doi:10.1136/bmjmed-2026-003026
  7. Novo Nordisk. Comunicados de 20/12/2024 (REDEFINE 1), 22/06/2025 (REDEFINE 1 e 2), 18/12/2025 (pedido à FDA), 23/02/2026 (REDEFINE 4) e 21/09/2026 (REIMAGINE 5).
  8. Anvisa. Mounjaro (tirzepatida): novo registro. 25/09/2023.

Este texto é informativo e não substitui consulta médica. O CagriSema não está aprovado para uso no Brasil.

Dr. Roberto Franco do Amaral Neto – Médico em Campinas (SP) · CRM-SP 111370 · RQE 50521 (Medicina Laboratorial)

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