IMPORTANTE
Este artigo possui finalidade exclusivamente informativa e educacional e não substitui consulta médica, dermatológica ou farmacêutica. A utilização de suplementos deve ser orientada por profissional habilitado, considerando histórico clínico, exames laboratoriais, medicamentos em uso e necessidades específicas de cada paciente.
O câncer de pele é o tipo de câncer mais frequente no mundo. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima que o carcinoma basocelular e o carcinoma espinocelular — os dois tipos chamados de carcinoma de queratinócitos — respondem pela grande maioria dos casos diagnosticados anualmente.
E se eu te dissesse que existe uma forma acessível, segura e estudada de reduzir significativamente o risco de desenvolver esse tipo de câncer?
O suplemento se chama nicotinamida — uma forma da vitamina B3. E os dados que acabaram de ser publicados merecem atenção.
O que é o carcinoma de queratinócitos?
Antes de falar da nicotinamida, vale entender o que estamos prevenindo.
O carcinoma de queratinócitos é o nome que engloba dois tipos de câncer de pele não melanoma:
- Carcinoma basocelular — o mais comum, de crescimento lento, raramente metastático
- Carcinoma espinocelular cutâneo — mais agressivo, com potencial de metástase em casos avançados
Ambos são fortemente relacionados à exposição solar acumulada ao longo da vida, à pele clara e ao histórico de múltiplos episódios de queimadura solar. Pessoas que já tiveram um episódio têm risco significativamente maior de novos tumores.
O estudo: o que foi analisado?
Uma análise publicada em junho de 2026 no JAMA Dermatology, conduzida por pesquisadores do Brigham and Women’s Hospital (Harvard), avaliou mais de 33.000 indivíduos dentro do sistema de saúde dos veteranos americanos — todos com histórico de pelo menos um carcinoma de queratinócitos prévio.
O objetivo foi avaliar se a nicotinamida oral, na dose de 500 mg duas vezes ao dia, era capaz de prevenir novos casos de câncer de pele — e se essa prevenção era economicamente viável.
Os resultados chamaram atenção:
| Desfecho | Resultado |
|---|---|
| Redução do risco absoluto | 0,051 por pessoa-ano |
| Número necessário para tratar | 19,7 pacientes para prevenir 1 caso/ano |
| Casos evitados na coorte/ano | 624 casos entre ~12.000 usuários |
| Economia líquida estimada | Mais de US$ 364.000 ao ano |
| Custo por AVAQ* ganho | −US$ 58.426 (economia, não custo) |
AVAQ = Ano de Vida Ajustado pela Qualidade — métrica usada para medir ganho real em saúde.
Em termos simples: usar nicotinamida custou menos do que tratar os cânceres que foram evitados. A intervenção pagou por si mesma.
Por que a nicotinamida pode prevenir câncer de pele?
A nicotinamida não é um antioxidante comum. Ela atua em mecanismos biológicos muito específicos que estão diretamente ligados ao desenvolvimento do câncer de pele induzido por radiação ultravioleta.
1. Reparo do DNA danificado pelo sol
A radiação UV causa lesões diretas no DNA das células da pele. A nicotinamida é precursora do NAD⁺ (nicotinamida adenina dinucleotídeo), uma molécula essencial para as enzimas de reparo do DNA — especialmente as PARPs (poli-ADP-ribose polimerases).
Quando o NAD⁺ está em nível adequado, o sistema de reparo funciona com mais eficiência. Quando está baixo — o que ocorre naturalmente com o envelhecimento e após exposição solar intensa — o reparo é ineficiente e as mutações se acumulam.
2. Proteção da imunossupressão local induzida pelo UV
A exposição solar não apenas danifica o DNA — ela também suprime localmente o sistema imunológico da pele, reduzindo a capacidade do organismo de reconhecer e eliminar células pré-malignas.
A nicotinamida demonstrou em estudos clínicos que é capaz de bloquear parcialmente essa imunossupressão induzida pela radiação UV, mantendo a vigilância imunológica ativa.
3. Preservação da energia celular
A síntese de ATP nas células da pele cai drasticamente após exposição UV. A nicotinamida, ao repor o NAD⁺, ajuda a manter os estoques energéticos celulares, favorecendo os mecanismos de defesa e reparo.
O que os estudos anteriores já mostravam?
Este não é o primeiro estudo sobre o tema. O ensaio clínico ONTRAC (Oral Nicotinamide to Reduce Actinic Cancer) — publicado no New England Journal of Medicine em 2015 — foi o marco inicial. Nele, 500 mg de nicotinamida duas vezes ao dia reduziu a incidência de novos carcinomas de queratinócitos em 23% ao longo de 12 meses em pacientes de alto risco.
Estudos posteriores identificaram uma redução de 14% no risco geral, que saltou para 54% quando a nicotinamida era iniciada após o primeiro diagnóstico de carcinoma — sugerindo que o benefício é ainda maior em quem já teve a doença.
O estudo de 2026 vem confirmar e quantificar o impacto econômico dessa estratégia em escala real, em uma população de risco.
Nicotinamida ≠ Niacina. Entenda a diferença.
Este é um ponto crítico que gera muita confusão — inclusive entre profissionais de saúde.
| Característica | Nicotinamida (Niacinamida) | Niacina (Ácido Nicotínico) |
|---|---|---|
| Forma da vitamina B3 | Sim | Sim |
| Causa flushing (vermelhidão) | Não | Sim (efeito clássico) |
| Reduz colesterol LDL | Não significativamente | Sim |
| Reparo de DNA / NAD⁺ | Sim | Sim |
| Prevenção de câncer de pele | Evidências robustas | Não estudada para este fim |
| Tolerabilidade | Excelente | Moderada (flushing limita uso) |
A nicotinamida (também chamada de niacinamida) é a forma recomendada para prevenção do carcinoma de queratinócitos. A niacina, apesar de ser a mesma vitamina, tem um perfil de efeitos adversos diferente e não é usada para esse fim.
Para quem esta estratégia faz mais sentido?
Com base nas evidências disponíveis, a nicotinamida é especialmente relevante para pacientes com:
- Histórico de um ou mais carcinomas de queratinócitos (basocelular ou espinocelular)
- Múltiplas lesões actínicas (queratoses actínicas) — lesões pré-cancerosas
- Pele tipo I ou II (muito clara, que queima facilmente)
- Exposição solar ocupacional ou recreativa intensa e prolongada
- Transplantados renais ou em uso de imunossupressores (risco muito elevado de câncer de pele)
- Histórico familiar de câncer de pele não melanoma
Ponto clínico importante: o benefício da nicotinamida é preventivo — ela reduz o risco de novos tumores em quem já tem predisposição, não trata lesões já estabelecidas. O diagnóstico precoce e o acompanhamento dermatológico regular continuam sendo insubstituíveis.
Dosagem utilizada nos estudos
A dose estudada e validada nos ensaios clínicos é de 500 mg duas vezes ao dia (total de 1.000 mg/dia), tomada por via oral.
Essa dose é considerada segura para uso contínuo. Os estudos não identificaram toxicidade hepática ou efeitos adversos relevantes nessa faixa — o que difere substancialmente das doses altas de niacina usadas para dislipidemia.
Limitações que precisam ser consideradas
Como médico, tenho o compromisso de apresentar os dados com equilíbrio. Alguns pontos merecem atenção:
1. A população estudada em 2026 é específica: veteranos americanos, em sua maioria do sexo masculino, mais velhos e brancos. A extrapolação direta para mulheres, jovens ou outras etnias requer cautela.
2. Os estudos não capturam todos os tipos de lesão: cânceres tratados topicamente (sem procedimento cirúrgico) não foram contabilizados, o que pode subestimar ainda mais o benefício real da nicotinamida.
3. A nicotinamida não substitui proteção solar: ela é um complemento, não uma alternativa ao uso de protetor solar, roupas de proteção e evitar exposição nos horários de pico.
4. Contexto brasileiro é diferente: nossa população tem maior diversidade de fototipos, o que pode alterar o perfil de risco e benefício.
Minha visão clínica
A nicotinamida é um exemplo claro do que busco mostrar aqui no blog: uma intervenção simples, de baixo custo, com mecanismo de ação bem estabelecido e evidência clínica crescente.
Não estamos falando de promessa ou modismo. Estamos falando de um suplemento com décadas de pesquisa, um estudo randomizado publicado no New England Journal of Medicine, e agora uma análise de custo-efetividade em escala real publicada no JAMA Dermatology.
Para pacientes com histórico de câncer de pele não melanoma ou com múltiplas queratoses actínicas, a discussão sobre nicotinamida faz parte da medicina preventiva que pratico.
Como sempre, a indicação, a dose e o acompanhamento dependem da avaliação individual de cada paciente.
Referências
1. Perez D, Hartman RI et al. Cost-effectiveness of oral nicotinamide for keratinocyte carcinoma prevention in veterans. *JAMA Dermatology*, junho de 2026.
Acessar JAMA Dermatology
2. Chen AC et al. A phase 3 randomized trial of nicotinamide for skin-cancer chemoprevention. *N Engl J Med*. 2015;373(17):1618–1626.
Acessar artigo no NEJM
3. Damian DL et al. Photoprotective effects of nicotinamide. *Photochem Photobiol Sci*. 2010;9(4):578–585.
Acessar no PubMed
4. Surjana D, Halliday GM, Damian DL. Role of nicotinamide in DNA damage, mutagenesis, and DNA repair. *J Nucleic Acids*. 2010;2010:157591.
Acessar no PubMed
Dr. Roberto Franco do Amaral – Especialista em Medicina Laboratorial – CRM 111370/RQE 50521


