Os Incontáveis Benefícios da Vitamina D

Poucas substâncias servem tão completamente ao organismo quanto a vitamina D. As descobertas mais recentes da medicina indicam que praticamente todos os tecidos e órgãos se beneficiam dela. “Direta ou indiretamente, a vitamina D está relacionada a pelo menos 2.000 genes, o que comprova a sua vasta gama de benefícios”, disse o endocrinologista americano Michael Holick, professor da Universidade de Boston, o grande pesquisador do assunto e autor do livro “Vitamina D — Como um Tratamento Tão Simples Pode Reverter Doenças Tão Importantes.”

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Já são conhecidos os benefícios da vitamina D na formação dos ossos e dentes. Mais recentemente, as pesquisas têm apontado seu possível efeito em diversos sistemas do corpo, como o imunológico e circulatório. E, entre eles, também o reprodutor. “Começaram a surgir alguns trabalhos mostrando alguma relação entre a vitamina D e a fertilidade desde 2008 e 2009”, afirma Jorge Haddad, especialista em reprodução assistida da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

A revista médica European Journal of Endocrinology publicou uma revisão, conduzida por pesquisadores da Universidade Médica de Graz na Áustria, que coletou estudos de relevância sobre a relação da vitamina D com a fertilidade, publicados até outubro de 2011. A revisão apontou que há uma correlação entre menores níveis de vitamina D e a baixa fertilidade.

A deficiência de vitamina D (que afeta 76.5% de moradores na cidade de São Paulo durante o inverno, baixando para apenas 37.3% durante o verão (segundo pesquisas publicadas por pesquisadores da USP e da UNIFESP em 2010) está associada à ocorrência e à sustentação de virtualmente todas as doenças ou manifestações autoimunitárias, incluindo-se a esclerose múltipla, neurite óptica, polineuropatia, miastenia gravis, artrite reumatóide, lúpus (discóide ou eritematoso sistêmico), alergias, etc. Também encontram-se associados à deficiência de vitamina D (facilitados, induzidos ou favorecidos por ela) outros distúrbios ou doenças não autoimunitárias tais como câncer, hipertensão, diabetes da maturidade, acidentes cardiovasculares, osteopenia e osteoporose, depressão, distúrbio bipolar, esquizofrenia, infertilidade, malformações congênitas, dor crônica (incluindo-se a fibromialgia e a enxaqueca), doenças neurodegenerativas (como Parkinson e Alzheimer), sonolência excessiva, etc.

Estima-se que existe uma redução de 30 a 50% no risco de desenvolvimento de câncer colo retal, de mama e de próstata com níveis sanguíneos de 25-hidroxi vitamina D3 de pelo menos 30 ng/mL. Melhor ainda se alcançar 50 ng/mL. Outro motivo que pode diminuir os níveis de vitamina D é a obesidade , já que por ser lipossolúvel ela se estocaria na gordura corpórea e seus níveis sanguíneos estariam mais baixos. Assim, esse seria um dos motivos da maior incidência de câncer e infarto nesta população.

Alguns estudos mostram que baixas concentrações de 25-hidroxi vitamina D estão associadas ao risco aumentado para a doença cardiovascular. O desenvolvimento acelerado da aterosclerose pode estar, em parte, associado com a deficiência de vitamina D. Como já se sabe a deficiência de vitamina D é comum em idosos e tem sido implicada em desordens psiquiátricas e neurológicas e foi associada pior desempenho do raciocínio e memória.

Evidências epidemiológicas recentes indicam que o autismo é provavelmente causado ou pelo menos grandemente facilitado pela deficiência grave de vitamina D ocorrendo durante a gestação da criança afetada. Atualmente existem inúmeras fontes científicas que evidenciam necessidade de não se permitir que quaisquer pessoas (sejam pacientes portadores ou não dessas doenças ou distúrbios) sejam mantidos com deficiência de vitamina D.

Mas a deficiência de vitamina D ainda é um problema de saúde mundial. A principal fonte de vitamina D para a maioria dos seres humanos é a exposição solar.

Fatores que influenciam a produção cutânea de vitamina D incluem o uso de protetor solar, pigmentação da pele, hora do dia, estação do ano, latitude, e envelhecimento. São indivíduos com maior risco de apresentar deficiência de vitamina D e maior risco de sofrerem complicações graves decorrentes dessa alteração metabólica, aqueles:

1) Com idade avançada (a pele de um indivíduo idoso de 70 anos produz apenas um quarto da quantidade de vitamina D produzida por um jovem de 20 anos de idade);

2) Com sobrepeso (a gordura acumulada sob a pele sequestra a vitamina D da circulação; em geral a necessidade de vitamina D nesses indivíduos é duplicada em relação a uma pessoa com peso normal para a mesma estatura);

3) Com pele escura (a melanina reduz a absorção dos raios solares matinais produtores de vitamina D), por isso devem se expor ao sol com maior frequência ou por um maior período de tempo, para garantir a produção ideal da vitamina.

4) Que trabalham ou estudam ou exercem suas atividades rotineiras exclusivamente em ambientes confinados, isolados da luz solar da manhã ou do final da tarde;

5) Que, mal orientados, utilizam filtros solares de forma indiscriminada, em horários (tais como no período inicial da manhã) em que a exposição solar é absolutamente necessária para a abundante produção de vitamina D na pele descoberta e para preservação da saúde (fator de proteção solar de nível 8 reduz em 90% a produção de vitamina D; o uso de fator de proteção de nível 15 reduz em 99% essa produção).

Alguns alimentos possuem uma quantidade significativa de vitamina D, naturalmente, e são alimentos que talvez você não queira exagerar como manteiga, nata, gema de ovo e fígado. Mas existem algumas boas fontes dessa vitamina. Todo tipo de leite, inclusive o desnatado, pode ser fortificado com vitamina D em cerca de 100 UI por xícara. No Brasil, essa fortificação não é obrigatória. Alguns fabricantes também fortificam cereais. O óleo de fígado de bacalhau, como suplemento, possui aproximadamente 1.200 UI de vitamina D por colher de sopa. Entretanto, ele deve ser usado com cuidado como um suplemento alimentar, pois também contém níveis elevados de vitamina A, que, em excesso, pode ter efeitos tóxicos.

Diagnóstico: Determinação dos níveis sanguíneos de 25-hidroxi vitamina D3 é a principal forma de se avaliar o status da vitamina D. Antes de realizar esse exame, recomenda-se fazer um jejum de 4 horas. Os seus valores de referência são de 30 a 100 ng/mL. Níveis ótimos vão de 50 a 100 ng/mL.

Tratamento: O tratamento com vitamina D deve ser controlado por um médico. O excesso da vitamina pode ser prejudicial à saúde, causando problemas como danos ao coração e fragilidade nos ossos.

Níveis baixos de vitamina D e o risco de hipertensão: um estudo de randomização mendeliana (RM).

Baixos níveis de vitamina D estão associados com pressão arterial elevada em diversos estudos anteriores.  Uma  pesquisa, publicada na Lancet Diabetes and Endocrinology, teve como objetivo constatar se altos níveis de vitamina D causam uma diminuição do risco para a hipertensão, utilizando de uma nova abordagem.

Apesar dos estudos controlados randomizados serem considerados “padrão ouro”, muitas pesquisas apontam resultados variados. Acredita-se que isso se deva, em parte, às dificuldades em se estudar o tema controlando os diversos fatores envolvidos. Por isso, os pesquisadores optaram por utilizar uma metodologia chamada de randomização mendeliana, que analisa as variações genética de funções conhecidas, correlacionando com os desfechos da doença. Eles criaram uma base com dados de genes que afetam os níveis séricos de vitamina D, com 146.581 pessoas e puderam constatar que a cada aumento de 10% na concentração sanguínea de vitamina D foi associado com uma mudança de −0,29 mm Hg na pressão arterial diastólica, uma mudança de −0,37 mm Hg na pressão arterial sistólica e uma diminuição de 8,1% das chances de hipertensão.

Os autores concluem dizendo:

“As concentrações plasmáticas aumentadas de 25(OH)D podem reduzir o risco de hipertensão. Esta constatação justifica uma investigação mais aprofundada em um estudo independente, similarmente desenvolvido”.

Diminuição genética da vitamina D e risco da doença de Alzheimer

Pesquisadores da McGill University, Montreal, Canada e do King’s College, London, UK, realizaram uma pesquisa com o objetivo de testar se os níveis de vitamina D geneticamente diminuídos estão associados à doença de Alzheimer (DA), usando a randomização mendeliana (RM).

Para isto, foram selecionados polimorfismos de nucleotídeo único (SNPs) que estão fortemente associados com os níveis da 25-hidroxivitamina D (25[OH]D). Os pesquisadores  mediram o efeito de cada um destes SNPs sobre a 25[OH]D no Canadian Multicentre Osteoporosis Study (CaMos, N= 2.347) e obtiveram as estimativas de efeito correspondentes para cada SNP sobre o risco de DA, da International Genomics of Alzheimer’s Project (17.008 casos de DA e 37.154 controles). Para produzir as estimativas da RM, os pesquisadores ponderaram o efeito de cada SNP sobre a DA por seu efeito sobre a 25[OH]D e meta-analisaram essas estimativas usando um modelo de efeitos fixos para fornecer uma estimativa de efeito sumário.

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Os resultados obtidos identificaram 4 SNPs significativas para a determinação dos níveis de 25[OH]D, que apresentaram 2,44% de variância na 25[OH]D no CaMos. Todos as 4 SNPs levam a genes da via metabólica da Vitamina D. As análises de RM demonstraram que uma diminuição da 25[OH]D aumenta o risco de DA em 25% . Os pesquisadores concluíram, a partir desses resultados que a redução da 25[OH]D é fator de risco causal para DA. Esses achados fornecem mais racionalidade para entender o efeito da suplementação com vitamina D na cognição e risco de DA em ensaios clínicos randomizados.

Vitamina D e tireoidite de Hashimoto.

O “Hellenic Journal of Nuclear Medicine” (2015 Sep-Dec; 18(3):222-7), trouxe um estudo relacionando baixas doses de Vitamina D sanguínea e os marcadores de tireoidite de Hashimoto. O estudo incluiu 218 pacientes com tireoidite de Hashimoto com seus níveis de TSH “normais”. Os pacientes do estudo viviam todos em Creta, uma ilha Grega que, na teoria, proveria abundante exposição solar necessária para formação do hormônio, ou melhor, da vitamina D. Exames de sangue mediram a 25-hidróxi-vitamina D e outros marcadores. Para esclarecer, Hashimoto é diagnosticada devido a elevação de 2 marcadores de anticorpos: anti-tireoglobulina e/ou anti-peroxidase, além do US.

Níveis de Vitamina D sanguínea menores que 30 ng/mL (nota minha: 30 ng/mL é considerado “suficiente” nos valores de laboratório no Brasil) foram encontrados em 85,3% dos pacientes do estudo. E entre os deficientes, os níveis de anti-peroxidase estavam significantemente maiores. No entanto, suplementação com 1.200 a 4.000 UI de vitamina D3 diariamente (nota minha novamente: dosagens ainda muito baixas!) no grupo deficiente durante 4 meses, resultou numa redução de 20,3% nos anticorpos anti-peroxidase no término do estudo.

Deficiência generalizada de vitamina D, provavelmente devido ao uso de protetor solar está relacionada com aumento de doenças crônicas, mostra revisão.

Resultados de uma revisão clínica publicada no Jornal da American Osteopathic Association em maio de 2017 revelou que cerca de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo podem ter níveis deficientes ou insuficientes de vitamina D devido à doença crônica e exposição solar inadequada relacionados ao uso de protetor solar. O estudo também revelou que 95 por cento dos adultos afro-americanos nos EUA podem ter deficiência ou insuficiência de vitamina D. As variações de vitamina D entre as raças são atribuídas a diferenças na pigmentação da pele. “As pessoas estão gastando menos tempo ao ar livre e quando saem, costumam usar protetor solar, o que basicamente anula a capacidade do corpo de produzir vitamina D”, disse Kim Pfotenhauer, professora assistente da Universidade Touro e uma das autoras deste estudo. “Enquanto queremos que as pessoas se protejam contra o câncer de pele, há níveis saudáveis ​​e moderados de exposição ao sol desprotegida que podem ser muito úteis para aumentar a vitamina D.”

Dra. Pfotenhauer também afirmou que doenças crônicas como diabetes tipo 2 e aquelas relacionados à má absorção, incluindo doença renal, doença de Crohn e celíaca, inibem a capacidade do corpo para metabolizar a vitamina D de fontes alimentares. Considerado um hormônio em vez de uma vitamina, a vitamina D é produzida quando a pele é exposta à luz solar. Os receptores de vitamina D são encontrados em praticamente todas as células do corpo humano. Como resultado, ele desempenha um amplo papel nas funções do corpo, incluindo a modulação do crescimento celular, neuromuscular e função imunológica e redução da inflamação. Os sintomas de vitamina D insuficiente ou deficiente incluem fraqueza muscular e fraturas ósseas. As pessoas que exibem esses sintomas ou que têm doenças crônicas conhecidas por diminuir a vitamina D, devem ter seus níveis verificados e se estiverem baixos, discutir opções de tratamento. No entanto, o rastreio universal não é necessário nem prudente na ausência de sintomas significativos ou doença crônica. Atualmente, a insuficiência é definida como entre 21 e 30 ng/mL e a deficiência é considerada abaixo de 20 ng/mL pela Endocrine Society.

Aumentar e manter níveis saudáveis ​​de vitamina D pode ser tão fácil quanto gastar de 5 a 30 minutos no sol do meio-dia duas vezes por semana. O tempo apropriado depende da localização geográfica de uma pessoa e da pigmentação da pele – a pele mais clara sintetiza mais vitamina D do que a pele mais escura. É importante renunciar ao protetor solar durante essas sessões porque SPF 15 ou superior diminui a produção de vitamina D3 em 99 por cento. “Você não precisa ir a banhos de sol na praia para obter os benefícios”, disse a Dra. Pfotenhauer. “Uma simples caminhada com braços e pernas expostos é suficiente para a maioria das pessoas.”

Fontes alimentares como leite, cereais matinais e cogumelos Portobello também são fortificados com vitamina D. A Dra. Pfotenhauer afirma que os suplementos são uma boa opção, pois são eficazes e apresentam poucos riscos, desde que sejam tomadas como prescrito por um médico consultado previamente. A investigação está em curso para determinar se a deficiência de vitamina D tem um papel na esclerose múltipla, doenças auto-imunes, infecções, doenças respiratórias, doenças cardiometabólicas, câncer e risco de fraturas. “A ciência procura encontrar correspondência direta entre os níveis de vitamina D e doenças específicas”, disse a Dra. Pfotenhauer.

Referências

2º Simpósio Brasileiro sobre o Potencial Terapêutico e de Prevenção da Vitamina D para a Saúde Humana.

http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/0306987786900101

A ChIP-seq defined genome-wide map of vitamin D receptor binding: Associations with disease and evolution. 

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2945184/

Vitamin D status in a sunny country: where has the sun gone.

http://www.clinicalnutritionjournal.com/article/S0261-5614(10)00111-1/abstract

Safety of vitamin D3 in adults with multiple sclerosis.         

http://ajcn.nutrition.org/content/86/3/ 645.long

Vitamin D supplement doses and serum 25-hydroxyvitamin D in the range associated with cancer prevention. 

http://ar.iiarjournals.org/content/31/2/607.long

Association of vitamin D status with arterial blood pressure and hypertension risk: a mendelian randomisation study.

http://www.thelancet.com/journals/landia/article/PIIS2213-8587%2814%2970113-5/abstract

Genetically decreased vitamin D and risk of Alzheimer disease.

https://www.ncbi.nlm.nih.gov /pubmed/term=Genetically+decreased+vitamin+D+and+risk+of+         Alzheimer+disease

Is vitamin D related to pathogenesis and treatment of Hashimoto’s thyroiditis?

 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Hellenic+Journal+of+Nuclear+Medicine%22+(2015+Sep-Dec%3B+18(3)%3A222-7)

Widespread vitamin D deficiency likely due to sunscreen use, increase of chronic diseases, review finds

https://www.sciencedaily.com/releases/2017/05/170501102258.htm

Deficiency, Its Role in Health and Disease, and Current Supplementation Recommendations

http://jaoa.org/article.aspx?articleid=2625276

Dr. Roberto Franco do Amaral Neto

Dr. Roberto Franco do Amaral Neto

4 respostas

  1. Estou precisando de ajuda com minha filh de 16 anos que faz uso de seroquel(quetiapina) devido oscilações de humor. Moramos muito próximo a praia e preciso de ajuda. Como posso conduzir a questão dos banhos de sol e tudo mais.

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