Há anos os cientistas estudam formas de acabar com o excesso de peso, que prejudica tanto a saúde quanto a silhueta. A solução já foi procurada em dietas e remédios. Agora, grande parte da atenção dos pesquisadores se volta para uma arma que existe dentro do nosso próprio corpo e que até hoje não vinha sendo explorada: a gordura marrom.

O tecido adiposo desempenha um papel central na fisiopatologia da obesidad e Diabetes mellitus – também conhecida como diabesidade – que hoje é uma das principais causas de morbidade e mortalidade nos países ocidentalizados.

Até pouco mais de uma década acreditava-se que o tecido adiposo era um compartimento inerte do corpo, responsável por um gasto energético inexpressivo e que tinha basicamente a função de armazenar energia. Atualmente, no entanto, sabe-se que se trata de um complexo reservatório energético regulado funcionalmente pelo sistema nervoso, hormônios e nutrientes. O conceito de que os adipócitos são células secretórias surgiu nos últimos anos. Os adipócitos sintetizam e liberam uma variedade de peptídeos e não-peptídeos, bem com expressam outros fatores além de sua capacidade de depositar e mobilizar triglicerídios, retinoides e colesterol. Estas propriedades permitem uma interação do tecido adiposo com outros órgãos, bem como com outras células adiposas. A observação importante de que adipócitos secretam leptina como produto do gene ob (gene da obesidade) estabeleceu o tecido adiposo como um órgão endócrino que se comunica com o sistema nervoso central. Atualmente, o tecido adiposo é considerado um importante órgão endócrino com funções reguladoras no balanço energético e outras funções neuroendócrinas. A regulação desses processos ocorre por meio de nutrientes e sinais aferentes dos tradicionais sistemas neurais e hormonais, e depende das necessidades energéticas do indivíduo.

Diferentemente do tecido adiposo branco, que armazena gordura no corpo, o tecido adiposo marrom a queima.

Ou seja, é uma gordura do bem. Uma gordura que emagrece.

A ciência já conhecia a existência desse tipo de tecido adiposo há muito tempo. Ele é, na verdade, uma herança da nossa evolução. Sua principal função é gerar calor. Dessa forma, evitou que os homens morressem de frio nos primórdios da história, quando a humanidade estava exposta a baixas temperaturas. Está presente nos mamíferos, em especial naqueles que hibernam. No ser humano, existe em quantidade razoável nos recém-nascidos. Como são incapazes de tremer – resposta do corpo para criar calor – e de escapar sozinhos de lugares frios, apresentam depósitos de gordura marrom significativos. Para nós, que não hibernamos e não vivemos em ambientes com frio extremo, a redução de gordura marrom é bastante significativa, apenas 5 a 10% do tecido adiposo corresponde à gordura marrom. É localizado principalmente na nuca, ombros, coluna vertebral, órgãos importantes e vasos sanguíneos. Acreditava-se que a gordura marrom não existia em adultos, mas uma equipe de pesquisadores do Instituto Garvan de Pesquisa Médica, na Austrália, descobriu gordura marrom em adultos; na verdade, quem possui níveis mais elevados dela tende a ser mais magro. Eles estimaram que 50 gramas de gordura marrom queimam (em vez de armazenar) cerca de 300 kcal por dia.

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Em 2014, três importantes pesquisas publicadas na mesma edição da revista científica “The New England Journal of Medicine” – uma das mais prestigiadas do mundo – revelaram que a gordura marrom podia ser encontrado também em adultos. Até então, imaginava-se que ela desaparecia do corpo gradativamente, ao longo do crescimento. Mas os trabalhos demonstraram de maneira inequívoca que a gordura marrom fazia parte do organismo adulto e que seus depósitos se localizam na mesma região onde estão os dos bebês, embora sejam menores do que os apresentados pelas crianças. O tecido adiposo marrom (TAM) é o principal local da termogênese adaptativa e estudos experimentais têm associado atividade TAM com proteção contra obesidade e doenças metabólicas, como diabetes mellitus tipo 2 e dislipidemia.

A gordura marrom apresenta um grande potencial como arma contra a obesidade

A divulgação desses trabalhos animou pesquisadores do mundo inteiro. A gordura marrom apresenta um grande potencial como arma contra a obesidade  O entusiasmo é compreensível. Quando ela é ativada para gerar calor, inicia-se um incrível processo de queima de calorias. Afinal, elas são o combustível para o funcionamento das células. Portanto, para cumprir sua missão, as células de gordura marrom recorrem à queima calórica. Sem isso, não têm como funcionar. E elas queimam mais goduras porque foram dotadas de um número muito maior de mitocôndrias, as  estruturas celulares responsáveis pela produção de energia, uma vez que precisam desse maquinário ampliado para dar conta de seu trabalho.

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O TAM ativo está presente em humanos adultos e sua atividade está comprometida em pacientes obesos. A capacidade protetora do TAM contra doenças metabólicas crônicas tem sido tradicionalmente atribuída à sua capacidade de utilizar glicose e lipídeos para a termogênese. No entanto, o TAM pode também ter um papel secretor, o que poderia contribuir para as consequências sistêmicas da atividade do TAM. Várias moléculas derivadas do TAM que agem de forma parácrina ou autócrina foram identificadas. A maioria desses fatores promove hipertrofia e hiperplasia do TAM, vascularização, inervação e fluxo sanguíneo, processos que estão todos associados ao recrutamento do TAM quando a atividade termogênica é aumentada. Além disso, o TAM pode liberar moléculas reguladoras que agem sobre outros tecidos e órgãos. Acredita-se que esta capacidade secretora do TAM esteja envolvida nos efeitos benéficos do transplante de TAM em roedores.

 

Atividade Física e Gordura Marrom

Estima-se que 50 gramas de tecido adiposo marrom ativo sejam suficientes para elevar em 20% a taxa do metabolismo basal (a quantidade de calorias que o organismo utiliza, em repouso, para manter o funcionamento dos órgãos). Por essa conta, um indivíduo que consiga acionar as células de gordura marrom poderia perder até cinco quilos, em um ano, mantendo a mesma dieta e o mesmo nível de atividade física.Pesquisadores da Universidade de Ohio, nos Estados Unidos, constataram que cobaias colocadas em ambientes ricos em estímulo (com opções de brin­­­cadeiras e atividade física e contato com outros animais, por exemplo) perderam 49% mais gordura abdominal do que outras que não desfrutaram das mesmas opções. Isso ocorreu graças a uma maior produção da gordura marrom ocorrida nestas circunstâncias. O cientista Bruce Spiegelman e seus colegas do Instituto de Câncer Dana-Farber, nos Estados Unidos, publicaram recentemente um artigo na revista científica “Nature” – uma das mais importantes do mundo – descrevendo o efeito do exercício para essa finalidade. Eles descobriram que a realização de exercícios de repetição, por períodos mais prolongados, aumenta no organismo a concentração do hormônio irisina. Produzido pelos músculos a partir do exercício, o composto parece induzir à formação de tecido adiposo marrom em vez de estimular a produção da gordura branca, aquela que guarda gordura. “É excitante descobrir uma substância natural conectada com o exercício com esse potencial terapêutico”, comemorou o pesquisador. E o estudo de sua associação com a gordura marrom pode vir a ser um bom caminho contra a obesidade.”

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Acido Ursólico e Gordura Marrom

Na Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, os pesquisadores descobriram que um dos segredos para elevar a produção da gordura que emagrece pode estar na maçã. Trata-se do ácido ursólico, presente na casca da fruta. A conclusão foi obtida após a realização de uma experiência com cobaias. Metade dos animais recebeu uma dieta rica em gordura por várias semanas. O restante ingeriu os mesmos alimentos, em maior quantidade, mas ganhou doses diárias do ácido ursólico. No final do experimento, os que haviam recebido suplementos do composto engordaram menos do que os outros. Agora, os cientistas pretendem verificar se resultados assim tão animadores podem ser observados também em seres humanos.

Frio e Gordura Marrom

Outros pesquisadores focaram seu interesse no poder do frio para ativá-la. No início do ano, um time de pesquisadores canadenses divulgou um trabalho no qual constatou que indivíduos submetidos a uma temperatura de 18 graus dobraram seu gasto de energia em comparação aos participantes que ficaram em ambientes com temperaturas mais elevadas. Outro grupo, coordenado pela cientista Sheila Collins, do Centro de Pesquisa Sanford-Burnham, nos Estados Unidos, descobriu um efeito inusitado do frio. Baixas temperaturas elevam a concentração de um hormônio fabricado no coração (peptídeo natriurético) e conhecido por interferir no controle da pressão arterial, que também ativa o tecido adiposo marrom”.

O endocrinologista Dr. Paul Lee, do Instituto de Pesquisa Médica Garvan, de Sydney, Austrália, recentemente realizou o estudo nos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), em Washington, nos EUA. Seu trabalho descobriu uma maneira em que a gordura e o músculo se comunicam entre si através de hormônios específicos _ transformando as células de gordura branca em células de gordura marrom para nos proteger contra o frio. Dr. Lee mostrou que, durante a exposição ao frio e se fazendo exercício, os níveis do hormônio irisina (que é produzido pelo músculo) e FGF21 (produzido pela gordura marrom) aumentaram. Especificamente, cerca de 10-15 minutos de tremores resultaram em aumentos equivalentes nos níveis de irisina como se a pessoa estivesse fazendo exercícios moderados durante uma hora. No laboratório, Irisin e FGF21 transformaram as células humanas de gordura branca em células de gordura marrom por um período de seis dias. O estudo foi publicado em fevereiro de 2014 na Cell Metabolism.

GORDURA MARROM

Se o poder do frio para ativar a gordura é consenso no meio científico, sua utilização como estratégia para emagrecimento, neste momento, ainda é motivo de discussão. Uma corrente defende que sim, como Leslie Kozak, do Centro de Pesquisa Biomédica Pennington, nos Estados Unidos. “Hoje temos uma chance de diminuir a obesidade simplesmente reduzindo a temperatura ambiente”, escreveu a pesquisadora em artigo sobre o tema. “Amanhã poderemos criar drogas que imitem a resposta natural do corpo ao frio e ajudem a aumentar a atividade dessa gordura.” Seu colega Jan Nedergaard, da Universidade de Estocolmo, autor de uma revisão a respeito do assunto, concorda. “Normalmente digo para as pessoas: ficar em uma sala com uma temperatura fria o suficiente para se sentir desconfortável, sem chegar a tremer, necessariamente irá estimular a gordura marrom a funcionar”, afirmou à imprensa especializada. No entanto, Sven Enerback, autor de um dos trabalhos que provaram a existência do tecido adiposo em adultos, acredita que ainda é preciso mais tempo para saber os reais resultados da estratégia. “Hoje sabemos que o frio ativa essa gordura, mas é cedo para afirmar que esse será um caminho efetivo para a redução de peso”.

Gordura Marrom e Controle de Diabetes

Em outro  estudo, pesquisadores da Universidade de Texas Medical Branch em Galveston mostraram pela primeira vez que as pessoas com níveis mais altos de gordura marrom têm melhor controle de açúcar no sangue, maior sensibilidade à insulina e um melhor metabolismo para a queima de estoques de gordura. A exposição ao frio leve aumentou o gasto energético de todo o corpo, aumentou a remoção de glicose da circulação e melhorou a sensibilidade à insulina em homens com excesso de gordura.

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BMP8B e Gordura Marrom

Esforços também estão sendo feitos para entender e conseguir provar como diversas proteínas atuam para estimular o funcionamento do tecido adiposo marrom. Uma entre elas é a proteína BMP8B. Em uma experiência relatada em um artigo divulgado há dois meses na revista científica “Cell”, os pesquisadores contaram que a aplicação da substância no cérebro de animais promoveu uma resposta mais forte das células de gordura marrom.  Esta proteína oferece a possibilidade de ser uma intervenção mais específica para ajudar na redução do peso corporal.

 

 

REFERÊNCIAS

Brown adipose tissue as a secretory organ.

http://www.nature.com/nrendo/journal/v13/n1/full/nrendo.2016.136.html

A gordura que queima gordura

http://istoe.com.br/228808_A+GORDURA+QUE+QUEIMA+GORDURA/

Tecido Adiposo como Glândula Endócrina

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-27302000000100004

Depot-related gene expression in human subcutaneous and omental adipocytes.

http://diabetes.diabetesjournals.org/content/47/9/1384.short

Lipoprotein lipase regulation by insulin and glucocorticoid in subcutaneous and omental adipose tissues of obese women and men.

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC288398/

L’adipocyte, cellule sécrétice et endocrine.

http://www.ipubli.inserm.fr/handle/10608/1157

Regional differences in triacyglycerol synthesis in adipose tissue. 

http://www.jlr.org/content/34/2/219.short

Plasma cholesteryl ester transfer protein.

http://www.jlr.org/content/34/8/1255.long

A ciência para perder a gordura da barriga

http://gizmodo.uol.com.br/ciencia-gordura-barriga/

Irisin and FGF21 Are Cold-Induced Endocrine Activators of Brown Fat Function in Humans.

http://www.cell.com/cell-metabolism/abstract/S1550-4131(14)00006-0?_returnURL=http%3A%2F%2 Flinkinghub.elsevier.com%2Fretrieve%2Fpii%2FS1550413114000060%3Fshowall%3Dtrue

Brown Adipose Tissue Improves Whole Body Glucose Homeostasis and Insulin Sensitivity in Humans. 

http://diabetes.diabetesjournals.org/content/early/2014/07/15/db14-0746

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