ATENÇÃO: PRODUTO INJETÁVEL É DE VENDA PROIBIDA NO BRASIL
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O GHK-Cu é um fragmento minúsculo de proteína. Ele tem três aminoácidos (glicina, histidina e lisina) ligados a um átomo de cobre. O seu corpo produz esse peptídeo naturalmente, e ele participa da cicatrização e da produção de colágeno. Por isso ele virou ingrediente de cremes e séruns. Mais recentemente, o mercado passou a oferecê-lo também em versões de uso sistêmico ( injetável e não aprovado)
A pergunta que importa, porém, é outra.
O que a ciência já comprovou em gente? E o que ainda está no nível da célula em laboratório e do camundongo? Neste texto eu separo as duas coisas.

GHK-Cu em 30 segundos
- O corpo produz o GHK-Cu, e a quantidade cai com a idade: de cerca de 200 ng/mL aos 20 anos para 80 ng/mL aos 60.
- Em células humanas de pele cultivadas em laboratório, ele aumenta a produção de colágeno, elastina e outras substâncias de sustentação da pele.
- Em animais, acelera o fechamento de feridas e reduz inflamação e fibrose.
- O uso mais estudado é o tópico (creme e sérum). Mesmo assim, o peptídeo penetra mal na pele e se degrada rápido, então a fórmula faz diferença.
- Faltam ensaios clínicos grandes e controlados em humanos, principalmente para o uso sistêmico, aquele que age no corpo todo.
O que é o GHK-Cu?
GHK é a sigla de glicil-histidil-lisina, uma sequência de três aminoácidos. Quando essa sequência se liga ao cobre, forma o GHK-Cu, também chamado de peptídeo de cobre. Pesquisadores o identificaram no plasma humano. Ele faz parte do sistema natural de reparo dos tecidos (Maquart, 1988; Pickart, 2018; He, 2023).
A quantidade no sangue diminui com o passar dos anos. Aos 20 anos, gira em torno de 200 ng/mL. Aos 60, cai para cerca de 80 ng/mL (Pickart, 2015). É por causa dessa queda que pesquisadores passaram a testar se repor o GHK-Cu ajudaria a pele a se recuperar. Eu já escrevi sobre o que mais muda na pele com a idade em envelhecimento da pele, alimentação, vitaminas e hormônios.
Outro detalhe ajuda a entender o papel dele. Quando um tecido sofre uma lesão, proteínas da matriz que sustenta a pele, como a SPARC, liberam o GHK (Pickart, 2015; Mortazavi, 2024; Naletova, 2025). Ou seja, o corpo usa esse peptídeo como sinal de “hora de reparar”.
Para que serve o GHK-Cu? O que os estudos mostram
O quadro abaixo resume as ações do GHK-Cu já descritas em pesquisa. A última coluna é a mais importante: ela diz em que tipo de estudo cada efeito apareceu.
| O que o GHK-Cu faz | Resultado descrito | Tipo de evidência |
|---|---|---|
| Produção de colágeno | Aumenta a fabricação de colágeno tipo I e de glicosaminoglicanos em fibroblastos humanos, as células que produzem colágeno (Maquart, 1988; Pickart, 2018). | In vitro / pré-clínico: células em laboratório (Maquart, 1988; Wojcieszuk, 2026) |
| Cicatrização | Acelera a contração da ferida, a formação de novos vasos sanguíneos e o fechamento da pele (Pickart, 2015; He, 2023; Castro, 2025). | In vivo em animais (Pickart, 2015; Rakhmetova, 2022; Wojcieszuk, 2026) |
| Inflamação | Reduz substâncias inflamatórias (TNF-α e IL-6) e freia a via TGF-β1/Smad, ligada à formação de fibrose (Zhou, 2017). | Pré-clínico (Zhou, 2017) |
| Regulação de genes | Modula genes ligados a estresse celular, reparo de DNA e defesa antioxidante (Pickart, 2015; Pickart, 2018; Mortazavi, 2024). | Modelos celulares / in silico: simulação em computador (Pickart, 2018; Pickart, 2017) |
Quadro 1. Principais ações do GHK-Cu descritas em estudos experimentais e o tipo de evidência de cada uma.
Uma tradução rápida dessa última coluna. “In vitro” quer dizer célula em placa de laboratório. “In vivo em animais” quer dizer camundongo, rato ou outro animal. “In silico” é simulação em computador. Nenhum dos três equivale a um estudo em pessoas, e essa diferença é o ponto central deste texto.
Como o peptídeo de cobre age na pele?
Os fibroblastos são as células que fabricam colágeno.
Em culturas de fibroblastos humanos, o GHK-Cu aumentou a produção de colágeno de forma proporcional à concentração. O efeito começou em doses minúsculas (10⁻¹² M) e chegou ao máximo em 10⁻⁹ M
Além do colágeno tipo I e da elastina, o peptídeo estimulou proteoglicanos como a decorina e os glicosaminoglicanos. Essas substâncias ajudam a pele a reter água e a manter a estrutura.
A pele saudável depende de um equilíbrio.
Enzimas chamadas metaloproteinases (MMPs) degradam colágeno velho, enquanto os inibidores dessas enzimas (TIMPs) freiam o processo. O GHK-Cu ajuda a regular esse balanço .
Em testes de fechamento de ferida em laboratório, as células tratadas migraram e repararam mais de 90% da área em 24 horas
Longevidade: o que vale para vermes e camundongos
Dois estudos chamam atenção, e os dois pedem cautela na leitura.
O verme Caenorhabditis elegans é um modelo clássico na pesquisa do envelhecimento. Nele, o GHK-Cu preservou o funcionamento das mitocôndrias, as usinas de energia da célula. Também aumentou a produção de ATP e prolongou a vida do animal por meio das vias DAF-16 e SKN-1 (Wen, 2026). É um verme de um milímetro. O resultado vale como pista biológica, não como promessa para pessoas.
Em camundongos com fibrose pulmonar, injeções na cavidade abdominal reduziram o acúmulo de colágeno no pulmão. Também frearam a transformação celular que alimenta a fibrose, pelo eixo TGF-β1/Smad2/3 (Zhou, 2017). De novo: animal, não gente. Enquanto esses dados não chegam a humanos, o que comprovadamente ajuda a envelhecer melhor continua sendo o básico. Eu falo disso em melhores alimentos para prevenir o envelhecimento.
Por que o creme de GHK-Cu pode não fazer efeito
Aqui está um ponto que quase nenhum rótulo conta. O GHK-Cu tem dois problemas práticos.
Primeiro, ele se degrada rápido. Enzimas da pele e dos fluidos do corpo, as carboxipeptidases, quebram o peptídeo em pouco tempo (Pickart, 2018; Rakhmetova, 2024; Naletova, 2025).
Segundo, ele penetra mal. O GHK-Cu é uma molécula que “gosta de água” (hidrofílica), e a camada externa da pele é gordurosa. O coeficiente de partição octanol-água, que mede essa afinidade, fica entre -2,38 e -2,49. Valores negativos assim indicam baixa penetração (Pickart, 2015; Das, 2026; Park, 2022).
Para contornar isso, a indústria modifica a molécula ou muda o veículo. Versões ligadas a um ácido graxo (Pal-GHK) ou com uma D-alanina na ponta (GHK-D-Ala) atravessam melhor a pele. Elas também resistem mais à degradação (Rakhmetova, 2022; Park, 2022; Rakhmetova, 2024). A nanotecnologia também entra nessa conta. Nanocelulose, lipossomos e micropartículas são necessários para manter o peptídeo ativo no tecido por mais tempo (Wang, 2024; Zhou, 2017; Das, 2026).
Na prática, dois produtos com “GHK-Cu” no rótulo podem entregar resultados bem diferentes. A fórmula pesa tanto quanto o ativo.
GHK-Cu funciona em pessoas? O que ainda falta
O uso mais estudado do GHK-Cu é o tópico, em cosméticos (Mortazavi, 2024; Das, 2026). Mesmo nesse caso, a maior parte dos dados vem de células e animais. Para o uso sistêmico, faltam ensaios clínicos controlados e de grande porte em humanos (Mavrych, 2026; Mortazavi, 2024; Wojcieszuk, 2026). Ou seja, a eficácia terapêutica não está confirmada. Sem esses estudos, também não existem dose, tempo de uso e perfil de segurança definidos.
Como molécula, o GHK-Cu é promissor. Como tratamento, ainda não passou pelo teste que importa: o ensaio clínico bem feito em pessoas. Até lá, em cosmético e com fórmula adequada, é um ativo com base biológica razoável. Em uso sistêmico, é experimentação sem comprovação. Se alguém lhe oferecer GHK-Cu como tratamento, pergunte qual estudo em humanos sustenta a indicação. E converse com o seu médico antes de usar qualquer forma que não seja o cosmético.
As canetas de GHK-Cu vendidas no Brasil
Em 2026 o GHK-Cu virou “caneta”. Sites e perfis nas redes sociais vendem canetas injetáveis prontas, com 100 mg do peptídeo, anunciadas como “caneta rejuvenescedora Existem também misturas apelidadas de “Glow”, que costumam juntar GHK-Cu, BPC-157 e TB-500 na mesma caneta e chegam por lojas de Ciudad del Este, no Paraguai.
A promessa é a mesma dos cremes, só que por injeção subcutânea: mais colágeno e uma pele mais firme.
O que a Anvisa diz
Nenhuma dessas canetas tem registro no Brasil. ,Em julho de 2026, a Anvisa publicou um alerta citando o GHK-Cu, o BPC-157, o TB-500, o CJC-1295 e a ipamorelina.
Nenhum deles está registrado como medicamento, suplemento ou cosmético, e por isso a agência os classifica como ilegais para qualquer uso em saúde, inclusive estético.
A nota lembra ainda que não existe suplemento alimentar injetável nem cosmético injetável no país. Se o produto é vendido nessa forma, é irregular (Anvisa, 2026). O GHK-Cu segue permitido como ingrediente de cosmético de uso na pele. A via injetável, não.
Manipulação também não resolve o caso da caneta pronta. Pela Anvisa, uma fórmula só pode ser manipulada de forma individualizada, com receita médica, em farmácia regularizada (Anvisa, 2026). Caneta lacrada, vendida em site para qualquer pessoa, não se encaixa nisso.
O que pode vir dentro da caneta
O que chega ao comprador é outro problema.
Em março de 2026, a Vigilância Sanitária de Mato Grosso do Sul interceptou nos Correios de Campo Grande 34 canetas de “GHK-CU Alluvi”. A embalagem dizia que o produto vinha da Alemanha, o que não era verdade, e a marca é proibida até no Paraguai.
A mesma operação já tinha barrado mais de 10 mil itens suspeitos desde fevereiro (Paz, 2026).
Sem registro, ninguém controla pureza, esterilidade nem dose. A caneta pode conter substâncias não declaradas ou uma concentração diferente da que está no rótulo.
E mesmo com um produto puro, faltaria o principal: não há ensaio clínico controlado de GHK-Cu injetável em pessoas (Mavrych, 2026; Wojcieszuk, 2026). Uma análise dermatológica dessa prática aponta riscos próprios da injeção: concentração que varia de lote para lote, infecção, nódulos inflamatórios que aparecem semanas depois e toxicidade local do cobre em concentração alta (Salvato, 2026). A dose que estimula a célula no laboratório não é a dose que vai para o seu tecido.
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Perguntas frequentes sobre GHK-Cu
O peptídeo de cobre é natural?
Sim. É um peptídeo que o próprio corpo produz e que circula no sangue. A concentração diminui com a idade (Pickart, 2015).
Qual é a diferença entre GHK e GHK-Cu?
GHK é o peptídeo sozinho. GHK-Cu é o mesmo peptídeo ligado ao cobre. Nessa forma, com o cobre, o estudo clássico de 1988 demonstrou o estímulo ao colágeno em fibroblastos humanos (Maquart, 1988).
Esse peptídeo aumenta o colágeno?
Em fibroblastos humanos cultivados em laboratório, sim, e de forma proporcional à dose (Maquart, 1988). Em pessoas, porém, ensaios clínicos grandes e controlados ainda não confirmaram esse aumento.
GHK-Cu serve para rugas?
É para isso que ele mais aparece em cosméticos. Existem revisões sobre o GHK tópico como peptídeo antirrugas (Mortazavi, 2024; Das, 2026). O limite está na penetração na pele e na estabilidade da molécula, que dependem da fórmula.
GHK-Cu injetável funciona?
Não há ensaios clínicos controlados de grande porte que comprovem isso em humanos (Mavrych, 2026; Wojcieszuk, 2026). Os efeitos descritos até agora vêm de células e de animais.
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Este texto tem caráter educativo e não substitui consulta médica. Dr. Roberto Franco do Amaral Neto é médico em Campinas (SP), CRM 11370/ RQE50521
A caneta de GHK-Cu é liberada pela Anvisa?
Não. Nenhum GHK-Cu injetável está registrado na Anvisa como medicamento, suplemento ou cosmético, e a agência classifica esses produtos como ilegais para uso em saúde, inclusive estético (Anvisa, 2026). O que existe de regular no Brasil é o GHK-Cu em cosméticos de uso na pele.
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Referências
- Maquart FX, Pickart L, Laurent M, et al. Stimulation of collagen synthesis in fibroblast cultures by the tripeptide-copper complex glycyl-L-histidyl-L-lysine-Cu2+. FEBS Lett. 1988;238(2):343-6. doi:10.1016/0014-5793(88)80509-x
- Pickart L, Vasquez-Soltero JM, Margolina A. GHK peptide as a natural modulator of multiple cellular pathways in skin regeneration. Biomed Res Int. 2015;2015:648108. doi:10.1155/2015/648108
- Pickart L, Vasquez-Soltero JM, Margolina A. The effect of the human peptide GHK on gene expression relevant to nervous system function and cognitive decline. Brain Sci. 2017;7(2):20. doi:10.3390/brainsci7020020
- Zhou XM, Wang GL, Wang XB, et al. GHK peptide inhibits bleomycin-induced pulmonary fibrosis in mice by suppressing TGFβ1/Smad-mediated epithelial-to-mesenchymal transition. Front Pharmacol. 2017;8:904. doi:10.3389/fphar.2017.00904
- Pickart L, Margolina A. Regenerative and protective actions of the GHK-Cu peptide in the light of the new gene data. Int J Mol Sci. 2018;19(7):1987. doi:10.3390/ijms19071987
- Rakhmetova, Dolgintsev et al. Effect of GHK-D-Ala peptide on innate immunity mechanisms. 2021. doi:10.21626/vestnik/2021-1/07
- Park, Lee et al. Transdermal delivery and biological activity of arginine… 2022. doi:10.53894/ijirss.v5i3.652
- Rakhmetova, Mishina et al. Regenerative effects of Gly-His-Lys and Gly-His-Lys-D-Ala… 2022. doi:10.24075/brsmu.2022.014
- He, Wang et al. Role of peptide–cell surface interactions in cosmetic… 2023. doi:10.3389/fphar.2023.1267765
- Mortazavi SM, Mohammadi Vadoud SA, Moghimi HR. Topically applied GHK as an anti-wrinkle peptide: advantages, problems and prospective. BioImpacts. 2024;15:30071. doi:10.34172/bi.30071
- Wang, Lin et al. Rigid-flexible nanocarriers loaded with active peptides… 2024. doi:10.1016/j.colsurfb.2024.113772
- Rakhmetova, Bobyntsev et al. Effects of GHK peptide and its structural analogues on… 2024. doi:10.17816/pavlovj471212
- Castro, Araújo et al. Nanoengineered self-assembling peptides with increased… 2025. doi:10.1021/acsami.4c18221
- Naletova I, Rizzarelli E. Protective functions of β-alanyl-L-histidine and glycyl-L-histidyl-L-lysine glycoconjugates and copper in concert. Antioxidants (Basel). 2025;14(12):1512. doi:10.3390/antiox14121512
- Das. GHK-Cu tripeptide: a multifunctional cosmeceutical agent. 2026. doi:10.62752/ijphi.v3i2.242
- Mavrych V, Shypilova I, Bolgova O. Therapeutic peptides in gerontology: mechanisms and applications for healthy aging. Front Aging. 2026;7:1790247. doi:10.3389/fragi.2026.1790247
- Wen H, Zhao K, Luo X, et al. The GHK-Cu delays aging in Caenorhabditis elegans via coordinated regulation of mitochondrial function and activation of DAF-16/SKN-1 pathways. Biogerontology. 2026;27(3). doi:10.1007/s10522-026-10444-x
- Wojcieszuk, Starczewski et al. BPC-157 and GHK-Cu in wound healing and tissue repair: a review. 2026. doi:10.12775/qs.2026.54.70818
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Checamos: peptídeos que prometem milagres NÃO estão registrados na Anvisa. Brasília; 2 jul 2026. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/checamos-peptideos-que-prometem-milagres-nao-estao-registrados-na-anvisa
- Paz D. Operação intercepta “canetas rejuvenescedoras” proibidas até no Paraguai. Campo Grande News; 4 mar 2026. Disponível em: https://www.campograndenews.com.br/brasil/cidades/operacao-intercepta-canetas-rejuvenescedoras-proibidas-ate-no-paraguai
- Salvato R. O risco pouco discutido do peptídeo de cobre injetável (GHK-Cu). Blog Dra. Rafaela Salvato; 15 mai 2026. Disponível em: https://blografaelasalvato.com.br/artigos/ghk-cu-injetavel-risco-oculto


