Medicamentos antienvelhecimento: Será que um dia vão existir?

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Na icônica série de ficção científica “Star Trek”, conhecida no Brasil como “Jornada nas Estrelas”, a expressão “vida longa e próspera”, popularizada pelo Sr. Spock (interpretado pelo ator Leonard Nimoy), é uma saudação dos Vulcanos, um povo extraterrestre que vive até os 240 anos em média. Indica um desejo de longevidade com qualidade de vida! Apesar de nós, seres humanos, ainda não atingirmos este patamar de longevidade, a idade média dos diversos povos do nosso planeta tem aumentado nas últimas décadas. Nossas vidas atualmente estão mais longas, mas apesar do aspecto positivo de se viver mais, os anos tardios podem se tornar fardos a serem suportados. O risco de desenvolver doenças crônicas, tais como doenças cardiovasculares, câncer ou artrites, aumenta progressivamente com a idade, o que pode deixar uma pessoa frágil e envolta por uma névoa de cuidados médicos.

Estas doenças crônicas ameaçam tanto os sistemas de saúde como a sociedade. Há 15 milhões de pessoas com pelo menos uma doença crônica na Inglaterra e 117 milhões nos Estados Unidos – quase a metade dos adultos da nação. Estas doenças são responsáveis ​​por 60% das mortes em todo o mundo e o número de pessoas atingidas continua a crescer. A gestão destas condições a longo prazo consome muito dinheiro, com 70% das despesas de saúde na Inglaterra sendo dirigido à esta questão. Este quadro salta para 86% nos Estados Unidos. As obrigações têm previsão de crescimento conforme as populações envelhecem, estimulando uma chamada para uma revisão de como essas doenças são tratadas. Enquanto isso, as famílias lutam para cuidar de parentes idosos que vivem com problemas de saúde, incapazes de cuidar de si mesmos.

“Todas as economias do mundo estão sob tensão devido ao envelhecimento das populações e aumento destas doenças crônicas”, diz Felipe Sierra, diretor da Divisão de Biologia do Envelhecimento do Instituto Nacional de Envelhecimento (NIA) em Bethesda, Maryland. Embora os fatores do estilo de vida como dieta e exercício físico sejam conhecidos por ajudarem a evitar estas doenças, são necessárias outras abordagens. “É uma questão de economia termos que fazer alguma coisa, porque as pessoas não fazem o que é melhor,” Sierra acrescenta. “Não é apenas bom para eles, mas bom para a sociedade.”

Encontrar curas para doenças individuais poderia ajudar, mas Sierra e outros estão de olho no envelhecimento, um fator de risco compartilhado. Para eles, a diminuição da taxa de envelhecimento biológico pode ser a melhor aposta para afastar estas doenças debilitantes. O objetivo é aumentar a “longevidade saudável” – o número de anos que uma pessoa está em boa saúde – ao invés de simplesmente acrescentar anos à vida. Alguns pesquisadores argumentam que abrandar o ritmo de envelhecimento biológico poderia ser a melhor maneira de retardar o desenvolvimento de doenças crônicas. “Produtos farmacêuticos que têm um efeito real sobre o processo de envelhecimento, e assim diminuem a taxa de incidência e progressão de uma ampla gama de doenças, em última análise, vão ser muito mais eficazes na obtenção de vida ativa e saudável do que as ideias de “ficção científica”, como uma completa cura do câncer ou dos ataques cardíacos”, diz Richard Miller, que realiza pesquisas sobre o envelhecimento na Universidade de Michigan.

Armados com o conhecimento de que os processos básicos de envelhecimento são conservados entre espécies, tais como leveduras, vermes, moscas e ratos, os pesquisadores começaram a pensar em traduzir essas informações para os seres humanos. Vários compostos, incluindo rapamicina, estendem o tempo de vida em camundongos, mas os testes em humanos esperam por mudanças nas práticas regulatórias, que atualmente evitam o tratamento do envelhecimento como uma condição médica. Uma oportunidade pode vir através de ensaios clínicos com a droga antidiabética metformina, o que poderia revelar atrasos no aparecimento de doenças relacionadas à idade. No entanto, a maioria das pesquisas tem uma tendência específica sobre as doenças, que que consideram o envelhecimento como um fator de risco que pode ser mitigado. “Ainda não se estabeleceu na consciência comum, a ideia de que o envelhecimento é algo maleável”, diz Matt Kaeberlein, da Universidade de Washington em Seattle. “Mas a biologia básica do envelhecimento amadureceu o suficiente para que as abordagens translacionais estejam, cada vez mais perto do ponto onde possamos intervir no processo de envelhecimento de uma forma significativa. “Para mim, isso é uma abordagem mais eficiente para melhorar a qualidade de vida do que tentar curar doenças individualmente “, acrescenta.

De escassez e sobrevivência

Conforme as células envelhecem, sua organização molecular diminui: proteínas indesejadas desestruturam a célula e o DNA danificado se torna irreparável. Eventualmente, as células com mais idade entram no estado de quase-limbo da senescência, em que param de se dividir, mas não morrem. As células-tronco com a tarefa de substituir as células envelhecidas também diminuem, comprometendo a capacidade do corpo de se renovar. Os controles destes processos internos de envelhecimento da célula revelaram que a diminuição das calorias dos alimentos em 30% prolonga a vida em diversas espécies, incluindo leveduras, vermes, moscas e roedores, que podem viver até 50% mais tempo. A restrição calórica também funciona para macacos e possivelmente humanos, como sugerido pelas pessoas com vida longa, mas um pouco mal alimentadas de Okinawa, no Japão, uma ideia que agora está sendo testada em um estudo norte-americano.

A maioria das pessoas não vai adotar essa austeridade dietética, mas o efeito tem permitido aos pesquisadores entender os processos biológicos que sustentam o envelhecimento. Com privação de alimento, as células parecem ir para o modo de sobrevivência, adiando planos de crescimento e renovação até o alimento ser menos escasso. Vias relacionadas com insulina e hormônios, tais como a do IGF-1 (Insulin Growth Factor-1), são reguladas negativamente. A via-alvo da rapamicina (em inglês, TOR – Target Of Rapamycin), que normalmente promove o crescimento e suprime a depuração de proteínas antigas da célula, é freada tornando as células mais resistentes ao estresse oxidativo, exposição ao metal pesado, calor ou danos no DNA. Drogas que atuam sobre essas vias poderiam retardar o envelhecimento e as doenças associadas, quando as pessoas mais necessitarem. “Já é difícil o suficiente dizer para jovens de 20 anos usarem cintos de segurança, e muito mais difícil ainda, dizer o que eles devem fazer para se sentirem-se saudáveis quando eles tiverem 85 anos”, diz James Kirkland, um pesquisador do envelhecimento na Clínica Mayo, em Rochester, Minnesota. “Então seria ótimo se houvesse um agente farmacológico que funcionasse para as pessoas quando elas começassem a sentir que as coisas estão indo mal.”

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Armário de remédios de Matusalém

Testar compostos para efeitos no tempo de vida pode parecer bastante simples, mas estudos em seres humanos levariam centenas de anos para serem concluídos. Espécies de vida curta, como ratos podem dar respostas mais imediatas, mas as diferenças de projetos experimentais e protocolos dificultam interpretabilidade. Para padronizar os estudos de longevidade, Instituto Nacional de Envelhecimento organizou o Programa de Testes de Intervenção (ITP), que testa cinco compostos anualmente em camundongos geneticamente heterogêneos, machos e fêmeas, em três laboratórios diferentes.

Até agora, o ITP tem relatado vários compostos que se estendem a vida útil. Estes incluem rapamicina, um inibidor da via TOR; acarbose, uma droga hipoglicemiante que atenua os picos glicêmicos após a alimentação; e 17-alfa-estradiol, um estrogénio não-feminilizante que funciona para os camundongos machos, mas não para as fêmeas. O ITP não encontrou provas para validar os extratos de chá verde ou resveratrol. Embora o resveratrol tenha mostrado proteger camundongos de uma dieta pouco saudável, não conseguiu até agora estender o tempo de vida em camundongos saudáveis.

A rapamicina possui os efeitos mais marcantes, prolongando a vida dos camundongos em até 25%. Ela funciona mesmo quando dada mais tarde na vida, no equivalente do camundongo a uma pessoa de 60 anos de idade, e isso atrasa o declínio relacionado à idade na cognição, na função cardíaca e no sistema imunológico. Pode-se argumentar que os seus efeitos sistêmico ( em todo organismomostram que a rapamicina está realmente retardando o envelhecimento, não apenas inibindo as doenças. Nos seres humanos, a rapamicina é utilizada para ajudar a prevenir a rejeição de órgãos em pacientes transplantados, aumentando o medo que possam perigosamente suprimir o sistema imunitário, que já declina com a idade. Um estudo de 2014 conduzido pela Novartis, no entanto, sugere uma alternativa: um análogo da rapamicina, chamado everolimus melhorou a resposta imune a uma vacina da gripe nas pessoas mais velhas, e camundongos tratados com everolimus tiveram maior proteção da vacina contra a gripe. O tratamento intermitente com rapamicina mais tardiamente na vida também pode ser suficiente, diz Kaeberlein. Ele está conduzindo um teste de dez semanas com rapamicina em cães domésticos em busca de alterações na saúde e na expectativa de vida.

Mais à Metformina

Uma droga com efeitos mais modestos do que a rapamicina pode ser ao primeira a ser testada em seres humanos. Um ensaio com a metformina, que tem um efeito ligeiro, se houver, sobre a expectativa de vida dos camundongos, ganhou uma bênção da US Food and Drug Administration (FDA) em 2015. Proibida por lei de avaliar medicamentos para tratar o envelhecimento, a FDA tem um processo de aprovação de drogas organizado em torno de encontrar tratamentos para uma doença-alvo. O novo teste, TAME (“Targeting Aging with Metformin’’ ou Alvejando o Envelhecimento com Metformina, em português), é sutilmente diferente na pergunta se a metformina vai retardar o desenvolvimento de múltiplas doenças crônicas relacionadas com a idade em pessoas que já as têm. Se for bem-sucedido, pode convencer os reguladores do FDA a considerar a aprovação de um único medicamento para várias doenças. “Qualquer um estaria relutante em dizer que estamos tratando o envelhecimento”, diz Kirkland, que está envolvido com o teste do TAME. “Mas o que é razoável e necessário é uma maneira de tratar a multimorbidade, ou seja, as muitas pessoas que têm três ou quatro ou cinco condições simultaneamente, muitos dos quais são idosos.”

O que é necessário é uma maneira de tratar multimorbilidade

A escolha da metformina é estratégica. É barata e segura, com um histórico de 60 anos em seres humanos e parece trabalhar em alguns dos mesmos processos envolvidos no envelhecimento. Um estudo observacional recente constatou que as pessoas com diabetes tipo 2 tomando metformina vivem cerca de 15% mais do que os não-diabéticos que não tomam metformina. Outro teste com metformina em curso no Reino Unido pode obter efeitos sobre a expectativa de vida. Uma vez que a metformina administrada a pessoas com diabetes reduz a incidência da doença cardíaca, o teste GLINT (Glucose Lowering in Non-diabetic Hyperglycaemia Trial), avaliará se administrar metformina mais cedo para as pessoas com teor elevado de glicose no sangue, mas que ainda não desenvolveram diabetes, pode ocorrer o mesmo. O teste planeja inscrever cerca de 13.000 pessoas, e acompanhar o desenvolvimento de doenças cardíacas e outras condições ao longo de cinco a sete anos.

Na doença e na saúde

Como o envelhecimento é amplamente considerado uma parte natural da vida, há uma baixa tolerância para os efeitos colaterais de compostos antienvelhecimento em geral. Mas, dado os riscos de nada fazer, o cuidado pode eventualmente dar lugar a testes de novos compostos. Kirkland e seus colegas vêm desenvolvendo “senolíticos” que têm como alvo as células senescentes, que são responsáveis ​​pela condução de alguns processos de envelhecimento. As células senescentes – células que pararam de se dividir – se acumulam com a idade e aceleram o processo de envelhecimento. Uma vez que o “healthspan” (tempo livre da doença) em camundongos foi reforçado por matar essas células, os cientistas encontraram tratamentos que poderiam realizar essa mesma tarefa em humanos. Experimentos parabióticos (união de dois indivíduos vivos, provocada por meio cirúrgico) mostram que o sangue de camundongos jovens revigora camundongos velhos, e os investigadores estão agora procurando os compostos-chave no sangue jovem, como a proteína GDF11. Outros estão desenvolvendo ativadores de receptores de sirtuínas, que estimulam a limpeza celular, chamada autofagia, com a intenção de promover a longevidade.

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Pesquisadores do envelhecimento também querem considerem a idade em seus experimentos. A maioria dos fármacos são testados em animais jovens, cuja fisiologia difere da fisiologia dos animais mais velhos. “Se você tem um tratamento que é testado apenas em animais jovens, suas chances de ser devidamente traduzido em seres humanos mais idosos é baixa”, diz Sierra, observando uma imunoterapia do câncer que se mostrou promissora em animais jovens, mas que demonstrou ser letal em animais mais velhos só depois que um teste em seres humanos foi interrompido. Sierra começou um grupo interessado em Geroscience (um campo interdisciplinar que visa compreender a relação entre o envelhecimento e as doenças relacionadas com a idade) nos Institutos Nacionais de Saúde para incentivar agências focadas em doenças para incluir experimentos em animais mais velhos. . “Temos de nos concentrar mais na saúde, e menos na doença”, diz ele.

Fonte do artigo: “Why the use of anti-ageing drugs could delay the development of chronic diseases” By Michele Solis. http://www.pharmaceutical-journal.com/news-and-analysis/features/why-the-use-of-anti-ageing-drugs-could-delay-the-development-of-chronic-diseases/20200663.article

Pesquisa e Edição: Dr. Roberto Franco do Amaral Neto

Tradução e Adaptação: Dr. Mauricio Aurelio Gomes Heleno

Referências:

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Estes novos remédios poderão te dar muitos anos de vida: conheça os senolíticos.

http://hypescience.com/senoliticos-senolytics/

Dr. Roberto Franco do Amaral Neto

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