Bisfenol A e seus efeitos na saúde humana

O estilo de vida moderno e alterações nas características sócio-econômicas das famílias têm estimulado há vários anos, o desenvolvimento de tecnologia de alimentos, processamento e embalagem. Um dos preços que pagamos por esta tecnologia, entre outros, é o consumo involuntário de substâncias químicas que podem prejudicar a saúde, entre elas o Bisfenol A (BPA).

O BPA é um composto utilizado na fabricação do policarbonato, um tipo de resina usada na produção da maioria dos plásticos. Um aumento da exposição ao BPA pode ser causado pela poluição ambiental (poeira, ar, água potável, a superfície água, águas residuais, chorume de aterros sanitários). O BPA pode entrar no corpo humano por ingestão, inalação ou absorção cutânea. No entanto, acredita-se que a principal exposição dos seres humanos ao BPA ocorre pela ingestão alimentos e bebidas contaminados com BPA a partir de garrafas de policarbonato e as latas revestidas com resinas epoxi. Segundo pesquisadores, o componente tem similaridade com o hormônio feminino e da tireoide. Sendo assim perturba algumas das funções do corpo humano, o sistema endócrino, em particular. O uso extensivo de BPA na fabricação de produtos que entram em contato com os alimentos, aumenta o risco de exposição a este composto, principalmente através do trato digestório. Dados da literatura indicam que a exposição ao bisfenol A, mesmo em doses baixas pode resultar em efeitos adversos para a saúde. A maior exposição ao BPA é estimada em lactentes, crianças e mulheres grávidas.

De acordo com pesquisa publicada pelo Dr. Tsai em 2006, devido ao aumento de produtos revestidos com BPA, a fabricação e exposição a essa substância tem aumentado mundialmente desde o final do século passado e von Saal & Hughes em 2005 e Kang e colaboradores em 2006, afirmam que grande parte dessa exposição em humanos ocorre através de alimentos como vegetais enlatados, peixes, carnes, laticínios e fórmulas infantis. Em virtude de seu uso generalizado e da alta exposição a que os humanos estão sujeitos, esse composto se tornou o químico com atividade estrogênica mais estudado, de acordo com review publicado pelo Dr. Rubin, em 2011. Estudos epidemiológicos com seres humanos têm correlacionado os níveis de BPA e diversas patologias. Baseado na pesquisa NHANES (National Health and Nutrition Examination Survey) do American Center for Disease Control (CDC) de 2003-2004, o BPA foi detectado em níveis relevantes em cerca de 90% dos americanos, sendo essa exposição maior em crianças em comparação a adolescentes e com os adolescentes apresentando níveis mais elevados do que adultos. Esta é uma observação importante, pois demonstra a grande exposição ao BPA durante o período de desenvolvimento pré púbere, alertou Rubin.

Substâncias químicas como o BPA são conhecidas por migrarem de embalagens de alimentos para os alimentos, resultando na exposição humana a esses produtos químicos. Da mesma forma, o BPA pode migrar de mamadeiras para o leite. O BPA tem sido associado aos efeitos adversos atribuídos às suas propriedades estrogênicas em vários modelos animais. As propriedades estrogênicas do BPA, têm impelido um considerável número de investigações sobre os riscos à saúde associados à exposição dos seres humanos. Estudos experimentais realizados pelo Dr. Timms e colaboradores em 2005, mostraram que a exposição de camundongos fêmeas CD-1 ao BPA via oral (10µg/Kg/dia) dos dias 14-18 de gestação resultou em aumento do tamanho e índice de proliferação das células epiteliais basais da próstata dorsolateral, aumento do volume prostático e malformação da uretra dos filhotes machos.

Um outro trabalho, realizado por Brandt em 2013, procurou investigar se a exposição gestacional ao BPA suplementado ou não com Indol-3-Carbinol (I3C), um composto natural com propriedades quimioprotetoras, interfere no padrão de desenvolvimento da próstata, bem como na suscetibilidade ao desenvolvimento de lesões prostáticas. Os resultados obtidos apontaram para um efeito “protetor” do I3C em animais adultos expostos ao BPA durante a gestação reduzindo os efeitos do “imprinting” estrogênico gestacional sobre a próstata.

Outros testes, conduzidos em uma espécie de camundongo selvagem, indicaram novos riscos para a saúde, ligados ao bisfenol-A. O consumo de níveis supostamente seguros da molécula fez com que camundongos machos da espécie Peromyscus maniculatus ficassem com sua capacidade de localização espacial prejudicada. Além de se tornarem pouco atraentes para as fêmeas, os bichos que ingeriam BPA também se saíam pior no labirinto, ou seja, sofreriam para achar parceiras caso estivessem na natureza. O grande problema da molécula e de seus derivados é o fato do nosso organismo e de outros vertebrados “interpretarem” as substâncias como hormônios sexuais, os mesmos que o corpo produz para gerar as características típicas de cada sexo.

Mas os hormônios sexuais também têm papel importante em uma série de outras dinâmicas do organismo, do sistema imunitário à capacidade mental, o que sugere uma ampla gama de potenciais problemas ligados ao Bisfenol A. A utilização maciça de bisfenol A (BPA) na produção industrial de plásticos de policarbonato tem levado à ocorrência deste composto (em níveis de μg/L a ng/L) nas estações de tratamento de água. Hoje em dia, a presença de BPA em fontes de água potável é uma grande preocupação da sociedade, porque o BPA é um dos compostos de desregulação endócrina (EDC) que podem causar perigo para a saúde humana, mesmo em níveis de concentração extremamente baixos. As propriedades de desregulação endócrina do BPA sugerem que ele pode afetar o desenvolvimento no início da vida, o que predispõe os indivíduos à doenças, mesmo com doses inferiores à dose de referência oral (RFD) estabelecida pela agência de proteção ambiental americana, em 1982.

Nos últimos anos, o impacto da exposição ambiental à substâncias químicas e os seus efeitos imunológicos, incluindo o desenvolvimento de alergia, tem sido um assunto de grande interesse. Estudos epidemiológicos indicam que a exposição a produtos químicos de desregulação endócrina produzidos em grandes volumes, incluindo bisfenol A (BPA) e ftalatos, é onipresente. As ligações entre a sua exposição e o desenvolvimento de alergia, asma e disfunção imunológica têm sido estudados in vitro, in vivo, e através de estudos de coorte humanos. Estes estudos indicam que alterações imunológicas deletérias, incluindo aumento da propensão para desenvolver chiado, alergia e asma após a exposição dietética e inalação a esses produtos químicos, pode estar ocorrendo. Mas não é so isto…

Um trabalho de revisão de 2016 realizado pelo Dr. Seachrist e colaboradores de diversas universidades americanas, conclui que há evidências substanciais de estudos com roedores que indicam que no início da vida, exposição ao BPA abaixo do RFD leva ao aumento da susceptibilidade ao câncer de mama e de próstata e propuseram que o BPA possa ser razoavelmente previsto como um carcinógeno humano na mama e próstata devido às suas propriedades promotoras de tumor.

Em outro artigo de revisão publicado em 2015, os autores afirmam que as evidências científicas encontradas mostram que o BPA pode interferir com a função endócrina do eixo hipotálamo-hipofisário alterando, por exemplo, a secreção de hormônios liberadores de gonadotropina (GnRH) do hipotálamo e na promoção da proliferação da hipófise. Tais ações afetam a puberdade, a ovulação e pode até resultar em infertilidade. Ovário, útero e outros órgãos reprodutivos também são alvos de BPA. A exposição ao BPA prejudica a estrutura e as funções de sistema reprodutor feminino, em diferentes períodos do ciclo de vida e pode contribuir para a infertilidade. Ambas as evidências, epidemiológicas e experimentais, demonstram que BPA afeta expressão de genes relacionados com a reprodução e modificação epigenética que estão intimamente associados com a infertilidade. Os efeitos prejudiciais sobre a reprodução podem ser ao longo da vida e transgeracional.

Produtos químicos como o bisfenol A podem também contribuir para vários estágios de desenvolvimento de tumores através dos efeitos sobre o microambiente do tumor. Por sua vez, o microambiente do tumor é constituído por uma interação complexa entre os vasos sanguíneos que alimentam o tumor, a matriz extracelular que proporciona suporte estrutural e bioquímico, moléculas que enviam mensagens e fatores solúveis, tais como citocinas. O microambiente do tumor também consiste de efetores celulares, incluindo células estromais multipotentes/células-tronco mesenquimais, fibroblastos, células precursoras endoteliais, células apresentadoras de antígeno, linfócitos e células imunitárias.

A instabilidade do genoma é outro pré-requisito para o desenvolvimento do câncer. Ela ocorre quando os sistemas de manutenção do genoma deixam de salvaguardar a integridade do genoma, seja como consequência de defeitos hereditários ou induzida através da exposição aos agentes ambientais (produtos químicos, agentes biológicos e radioterapia). Além de agentes cancerígenos humanos conhecidos, a exposição a doses baixas de outros produtos químicos presentes na nossa sociedade moderna poderia contribuir para a carcinogênese por afetar indiretamente a estabilidade do genoma. Entre os produtos químicos que contribuem indiretamente para a instabilidade do genoma se encontra o bisfenol A, que atua na modificação epigenética, sinalização de danos do DNA, função mitocondrial e segregação cromossômica.

 

A Polêmica do Bisfenol A

Cientistas, fabricantes e órgãos reguladores concordam em quatro pontos:

1- Pessoas do mundo civilizado estão em constante e crescente exposição ao BPA.

2- Bebês são os mais vulneráveis à exposição, vinda principalmente das mamadeiras de policarbonato.

3- O BPA age como o estrogênio.

4- Alguns estrogênios sintéticos causam câncer e infertilidade.

 

Além dos problemas apresentados neste artigo, existem outras disfunções associadas à exposição ao BPA. Entre elas temos:

• Hiperatividade;

• Autismo em crianças e adolescentes;

• Problemas cardíacos;

• Diabetes

 

Como limitar a exposição diária ao BPA:

1 – Evitar Alimentos Em Latas.

Enquanto algumas empresas eliminaram o BPA de suas latas, a maioria ainda emprega esta substância química danosa em seus processos de embalamento em enlatados. Isto é especialmente importante quanto mais ácidos forem os alimentos como tomates, por exemplo. Devemos variar entre tomates frescos ou dos que vêm em embalagem de vidro ou em caixa de papelão.

2. Desistir de Refrigerantes em Lata

O BPA pode ser detectado em muitos refrigerantes em lata. Esta é uma decisão muito fácil de tratar! Para começar, refrigerante não é a opção mais saudável. Mantendo-se fiel à água e ao chá é melhor para o seu corpo do que o BPA. Se você quiser desfrutar de um refrigerante, tome em garrafa ou de máquina de refrigerantes.

3. Rejeitar recibos de caixa

A maioria dos tipos de recibos de caixa contém BPA. Se for uma forma “livre” deste produto químico, significa que ficará retido em suas mãos e daí em seu corpo, em maiores quantidades do que alguns dos outros produtos. Se possível, diga realmente não para estes recibos quando for a uma loja ou a um comércio qualquer. Se pegar o recibo, lave o mais rapidamente possível suas mãos, especialmente se for lidar com alimentos.

4. Livrar-se dos Plásticos Tipos 3 e 7

A água engarrafada, entregue em sua casa ou no escritório, pode ser muito provavelmente armazenada em uma garrafa feita com a resina plástica chamada policarbonato/PC e identificada como nº 7. Importante se saber que existem alternativas que se pode procurar. Também se deve verificar com cuidado tanto a resina plástica de que a mamadeira dos nenês é feita como as garrafas plásticas onde se armazena água. Muitas delas são feitas com a resina plástica PVC ou Vinil, identificada com o nº 3 como com o PC, nº 7. Estes números citados podem estar na base das garrafas ou mamadeiras e estarem dentro de um triângulo, símbolo da reciclagem. Definitivamente, ninguém vai querer que seus filhos bebam em recipientes contaminados com BPA!

5. Proteja seu bebê

Na maioria das situações, amamentar é o melhor. Estamos nos últimos tempos, aprendendo que os alimentos de bebês estão apresentando, quando em latas, contaminação com BPA. Pode-se diminuir este risco de exposição ao BPA usando fórmulas alimentícias em pó quando o aleitamento não for a opção. A ONG norte-americana EWG tem mais dicas no site: http://www.consumerreports.org/cro/baby-bottles/buying-guide.htm

No Brasil, desde o dia 1º de janeiro de 2012, está proibida a venda de mamadeiras ou outros utensílios para lactentes que contenham a substância Bisfenol-A (BPA). A determinação é da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e baseada em estudos que apontam possíveis riscos decorrentes da exposição ao BPA. Em 2010, a SBEM-SP já havia lançado a campanha “Diga não ao bisfenol A, a vida não tem plano B”, com o objetivo que a substância fosse banida de produtos infantis e de embalagens de alimentos.

nao ao bisfenol

 

REFERÊNCIAS

EXPOSIÇÃO IN ÚTERO AO DESREGULADOR ENDÓCRINO BISFENOL A E AO AGENTE QUIMIOPREVENTIVO INDOL-3-CARBINOL: EFEITOS SOBRE A MORFOGÊNESE E A SUSCETIBILIDADE À CARCINOGÊNESE PROSTÁTICA

http://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/87754/brandt_jz_me_botib.pdf?sequence=1&isAllowed=y

BISPHENOL A – APPLICATION, SOURCES OF EXPOSURE AND POTENTIAL RISKS IN INFANTS, CHILDREN AND PREGNANT WOMEN

http://ijomeh.eu/Bisphenol-a-application-sources-of-exposure-and-potential-risks-in-infants-children-and-pregnant-women,1991,0,2.html

Bisphenol-A and Female Infertility: A Possible Role of Gene-Environment Interactions

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4586663/

Baby bottle buying guide

http://www.consumerreports.org/cro/baby-bottles/buying-guide.htm

Molecular Mechanisms of Action of BPA

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4679188/

Dr. Roberto Franco do Amaral Neto

Dr. Roberto Franco do Amaral Neto

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