Endometriose: guia completo de sintomas, diagnóstico e tratamento

Antes de ler: este guia sobre endometriose é educativo e não substitui consulta, exame ou prescrição. Dor pélvica súbita e intensa, febre ou sangramento abundante pedem atendimento de urgência.

Resposta rápida

A endometriose é uma doença inflamatória crônica em que um tecido parecido com o endométrio, a camada interna do útero, cresce fora dele. Ela atinge cerca de 1 em cada 10 mulheres em idade reprodutiva e causa principalmente cólica menstrual forte e dor pélvica. Cerca de um quarto das mulheres relata dificuldade para engravidar. Atualmente, o diagnóstico parte dos sintomas e dos exames de imagem, sem depender de cirurgia. O tratamento de primeira linha é hormonal e costuma controlar os sintomas, mas não cura a doença.

Por Dr. Roberto Franco do Amaral · CRM-SP 111370 · RQE 50521 · Leitura completa em cerca de 30 minutos

Endometriose em resumo

  • Cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva têm endometriose, e o governo federal fala em cerca de 8 milhões de brasileiras.
  • Os sinais mais típicos são cólica menstrual que piora com os anos, dor na relação sexual e dor para evacuar ou urinar durante a menstruação.
  • O diagnóstico ainda demora anos, embora as diretrizes já aceitem começar o tratamento com base nos sintomas.
  • Ultrassom transvaginal com preparo intestinal e ressonância magnética mostram cistos de ovário (endometriomas) e lesões profundas, mas um exame normal não descarta a doença.
  • Anticoncepcionais combinados ou progestagênios isolados, de preferência em uso contínuo, formam a primeira linha de tratamento.
  • Desde 1º de outubro de 2026, os planos de saúde cobrem o DIU hormonal para endometriose quando a paciente cumpre os critérios da ANS.
  • Testes de saliva e de sangue seguem em estudo e ainda não substituem a avaliação clínica.
  • O risco de câncer de ovário aumenta, porém continua baixo em números absolutos.

O que é endometriose

Endometriose é a presença de tecido semelhante ao endométrio, a camada interna do útero, em locais fora da cavidade uterina. Os focos aparecem principalmente no peritônio (a membrana que reveste a pelve), nos ovários, nos ligamentos atrás do útero, no intestino e na bexiga. Como dependem de estrogênio, eles reagem aos hormônios do ciclo, inflamam e podem sangrar. Aos poucos, podem surgir aderências e cicatrizes.

O consenso brasileiro de 2026 define a endometriose como condição inflamatória crônica, sistêmica e dependente de estrogênio. Ou seja, os efeitos vão além da pelve, com sinais de inflamação em outras partes do corpo, maior sensibilidade à dor e alterações de humor (Taylor, 2021). A doença não é câncer, não é contagiosa e, em geral, perde força depois da menopausa.

Cerca de 1 em cada 10 mulheres em idade reprodutiva convive com a doença. No Brasil, o protocolo do SUS de 2026, conhecido pela sigla PCDT, cita prevalência de 6,4% nessa faixa de idade. Entre as que têm sintomas e chegam a serviços especializados, porém, o número sobe para até 34,2%. Em junho de 2026, o governo federal falou em cerca de 8 milhões de brasileiras. As estimativas não coincidem porque usam fontes e métodos diferentes.

Tipos de endometriose: superficial, ovariana e profunda

A doença aparece em três formas, que podem coexistir na mesma mulher.

  • Superficial ou peritoneal: focos rasos no peritônio. É a forma mais comum, mas escapa com frequência dos exames de imagem.
  • Ovariana (endometrioma): cisto no ovário com conteúdo espesso e escuro, conhecido como cisto de chocolate.
  • Profunda: lesões que penetram mais de 5 mm abaixo da superfície e alcançam ligamentos, intestino, bexiga ou ureter.

Os cirurgiões classificam a extensão das lesões em estágios de I a IV (mínima, leve, moderada e grave). Só que o estágio não acompanha a intensidade da dor, segundo a diretriz europeia ESHRE de 2022. Há mulheres com doença mínima e dor incapacitante, assim como o contrário.

Sintomas da endometriose: quando a cólica não é normal

Cerca de 90% das mulheres com endometriose têm dor pélvica (As-Sanie, 2025). Em geral, a cólica comum melhora com analgésico simples e não atrapalha a rotina. Já a cólica que faz faltar à escola ou ao trabalho, que piora ano após ano ou que não cede com anti-inflamatório pede investigação. Os sinais que as diretrizes mandam valorizar são estes:

  • cólica menstrual intensa, que limita as atividades;
  • dor profunda durante a relação sexual;
  • dor para evacuar ou urinar, sobretudo na menstruação;
  • sangue nas fezes ou na urina que coincide com o período menstrual;
  • dor pélvica fora da menstruação;
  • cansaço persistente;
  • dificuldade para engravidar.

Uma parte das mulheres não sente nada e descobre a doença ao investigar infertilidade ou em um exame pedido por outro motivo.

Sinais menos comuns, fora da pelve

Quando há focos no diafragma, no tórax ou em cicatrizes, os sintomas mudam de lugar, mas mantêm o padrão cíclico. A ESHRE cita, por exemplo, dor na ponta do ombro, tosse, dor no peito e até pneumotórax que aparecem junto com a menstruação. Nódulos em cicatrizes cirúrgicas que incham e doem nesse período também entram na lista. Esses quadros são raros, e a suspeita vem da repetição a cada menstruação.

Condições que costumam acompanhar a endometriose

A síndrome do intestino irritável é duas a três vezes mais frequente em quem tem endometriose (Chiaffarino, 2021). Uma revisão guarda-chuva de 2026, tipo de estudo que reúne várias meta-análises, encontrou risco quase três vezes maior de ansiedade e de depressão. Os resultados, porém, variaram muito entre os estudos. Além disso, enxaqueca, dor lombar e dor crônica em vários locais compartilham parte da base genética com a doença, segundo um grande estudo genômico de 2023. Por isso o consenso brasileiro defende o cuidado multidisciplinar.

O que causa a endometriose

Nenhuma teoria explica sozinha todos os casos. A mais antiga é a da menstruação retrógrada, em que parte do sangue menstrual reflui pelas trompas e leva células do endométrio para a pelve. Esse refluxo acontece na maioria das mulheres, mas só uma parte desenvolve a doença. Logo, outros fatores precisam estar presentes, como a genética, a resposta imune e o ambiente hormonal (Cousins, 2023).

Os fatores de risco mais consistentes são primeira menstruação precoce, ciclos curtos e índice de massa corporal mais baixo. Ciclos com menos de 27 dias, por exemplo, se associaram a chance 68% maior da doença na revisão guarda-chuva de 2026. Não ter tido filhos ou ter malformações que obstruem a saída do fluxo menstrual também aumenta o risco (As-Sanie, 2025). Ter mãe ou irmã com endometriose também pesa.

Genética, fibrose e microambiente imune

A pesquisa recente ajuda a explicar por que a doença se instala em algumas mulheres e por que a dor persiste mesmo com lesões pequenas. Nenhum dos temas abaixo muda, por enquanto, a conduta no consultório.

Genética: 42 regiões do genoma ligadas à endometriose

Estudos de associação genômica ampla (GWAS) identificaram 42 loci (regiões do genoma) significativos, com 49 sinais associados à suscetibilidade à endometriose (Rahmioglu, 2023; Pais, 2023). O dado vem de uma meta-análise com 60.674 mulheres com a doença e 701.926 controles. Somadas, essas variantes explicam até 5% da variação no risco, enquanto estudos com gêmeas estimam a herdabilidade total em torno de 50% (Saunders, 2022).

Herdabilidade de 50% quer dizer que cerca de metade da diferença de risco entre as mulheres se explica pela genética. Não quer dizer que a filha de quem tem a doença tenha 50% de chance de tê-la. Parte das variantes hereditárias fica em vias hormonais, como a do gene ESR1, que codifica um receptor de estrogênio.

O que isso não significa: que já exista teste genético capaz de confirmar ou descartar endometriose. A ESHRE recomenda que exames genéticos fiquem restritos à pesquisa.

Mutações somáticas e o risco de transformação maligna

Além das variantes hereditárias, o sequenciamento revelou mutações somáticas, isto é, adquiridas ao longo da vida, em genes condutores de câncer. Elas aparecem tanto no endométrio eutópico, o de dentro do útero, quanto nas lesões ectópicas (Cousins, 2023; Saunders, 2022). Em cerca de 0,5% a 1% dos casos, essas alterações genéticas, somadas ao estresse oxidativo, facilitam a transformação maligna das lesões em carcinomas ovarianos associados à endometriose (Ioannidou, 2025).

O que isso não significa: que uma mutação desse tipo em uma lesão seja diagnóstico de câncer. Em um estudo, 10 de 39 lesões profundas (26%) tinham mutações condutoras em genes como ARID1A, PIK3CA, KRAS ou PPP2R1A (Anglesio, 2017). Ainda assim, os autores descrevem essas lesões como praticamente sem risco de malignização. Mutações em genes ligados ao câncer aparecem também no epitélio do endométrio normal (Suda, 2018). A transformação maligna, quando ocorre, envolve quase sempre o ovário.

 

Microbiota genital e intestinal na endometriose

Em mulheres com endometriose, a disbiose genital e intestinal, isto é, o desequilíbrio da flora, se correlaciona com perda de Lactobacillus e aumento da ativação imune local (Jiang, 2021). Em estudo divulgado em 2024, um grupo do Baylor College of Medicine comparou as fezes de 18 mulheres com endometriose e de 31 sem a doença. O 4-hidroxindol, um metabólito de origem bacteriana, estava mais baixo no grupo com endometriose. Em camundongos, a mesma substância reduziu as lesões e a dor (Talwar, 2025).

O que isso não significa: que a microbiota cause a endometriose ou que já sirva para diagnosticar ou tratar a doença. Correlação não é causa, e os estudos em humanos ainda são pequenos. Não há exame de microbiota, probiótico ou antibiótico com essa indicação. A queixa intestinal, por outro lado, merece avaliação própria, porque a síndrome do intestino irritável é frequente nessas pacientes. Veja também os textos do blog sobre saúde intestinal.

Como se chega ao diagnóstico da endometriose

Durante décadas, o diagnóstico dependeu de laparoscopia (cirurgia por vídeo) com biópsia, mas isso mudou.

A diretriz europeia de 2022 reserva a laparoscopia diagnóstica para quem tem exame de imagem negativo ou não respondeu ao tratamento empírico (ESHRE, 2022). Empírico é o tratamento iniciado só com base nos sintomas. Em março de 2026, o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas publicou sua primeira diretriz dedicada ao diagnóstico (ACOG, 2026). De acordo com o texto, sintomas ou exame físico compatíveis bastam para o diagnóstico clínico presumido e para iniciar o tratamento.

No Brasil, o protocolo do SUS de 2026 vai na mesma direção. Conforme o documento, não há benefício em atrasar o tratamento à espera de confirmação cirúrgica (PCDT, 2026).

A consulta começa pela história: quando a dor aparece, o que piora e o que você já tentou. O exame ginecológico pode achar nódulos e pontos dolorosos, mas um exame normal não afasta a doença. Por isso a investigação segue para a imagem mesmo quando o toque não mostra nada.

Exames de imagem: ultrassom transvaginal e ressonância

ExameO que mostraLimite
Ultrassom transvaginal com preparo intestinalEndometrioma e lesões profundas em intestino, bexiga ou ligamentosDepende de examinador treinado e, em geral, não enxerga a doença superficial
Ressonância magnética da pelveMapa das lesões profundas, útil principalmente antes de cirurgiaCusta mais e, assim como o ultrassom, falha na doença superficial
LaparoscopiaVisão direta das lesões, com biópsia e tratamento no mesmo atoÉ cirurgia, com anestesia e riscos, e ainda assim a biópsia negativa não exclui a doença
CA-125 no sanguePode subir na endometriose, mas também em outras condiçõesPouco sensível, por isso as diretrizes não o recomendam

O ultrassom para endometriose exige preparo intestinal e profissional treinado nessa busca, o que o diferencia do exame de rotina. Nenhum método de imagem exclui a doença, porque a forma superficial costuma escapar do ultrassom e da ressonância.

Por que o diagnóstico da endometriose demora tanto

O intervalo entre o primeiro sintoma e o diagnóstico se mede em anos. São 7 em média, de acordo com a página do Ministério da Saúde, e de 8 a 12 no protocolo do SUS de 2026. A diretriz americana fala em 4 a 11 anos. Nesse caminho, a maioria das mulheres passa por três ou mais médicos (As-Sanie, 2025).

Parte do atraso vem da ideia, repetida em casa e no consultório, de que cólica forte é normal. A diretriz do ACOG reconhece também o peso dos vieses de gênero e de raça.

Falta também gente treinada. Por isso o Projeto Endometriose Brasil, do Ministério da Saúde com a Beneficência Portuguesa de São Paulo, capacitou cerca de 1,2 mil cirurgiões, radiologistas e profissionais da atenção primária. E

nquanto isso, a procura cresce: os atendimentos por endometriose na atenção primária do SUS subiram 76,2% em três anos, conforme dado de 2025 do ministério.

Novos exames para endometriose: saliva, sangue, fezes e sangue menstrual

Um exame simples que confirmasse a doença pouparia anos de espera, e vários grupos tentam chegar lá. Em setembro e outubro de 2026, o tema ganhou espaço no New York Times e na Folha de S.Paulo. Em medicina laboratorial, porém, a primeira pergunta diante de um teste novo é onde e em quem os autores o validaram.

Como ler os números desses testes

Sensibilidade é a parcela das doentes que o teste detecta. Especificidade é a parcela das não doentes em que ele dá negativo. A AUC resume as duas em uma nota que vai de 0,5, o acaso, a 1, o teste perfeito. A tabela traz o melhor dado publicado de cada candidato.

AUC:  Área Sob a Curva ROC, do inglês Area Under the Curve) é uma métrica usada em estatística e aprendizado de máquina para avaliar o desempenho de modelos de classificação binária que separam os dados em duas classes, como “doente vs. saudável” ou “fraude vs. legítimo”

Teste e o que medeMelhor dado publicadoSituação
Saliva (Endotest): assinatura de 109 microRNAs971 mulheres em 17 centros franceses, com sensibilidade de 97,3% e especificidade de 94,1% (Bendifallah, 2025)Marca CE e reembolso experimental na França, mas sem aprovação da FDA, a agência dos Estados Unidos
Sangue (PromarkerEndo): painel de 10 proteínas do plasma805 participantes, com AUC de 0,997 na doença grave, mas de 0,729 nos estágios II a IV (Schoeman, 2025)Autores ligados à empresa e participantes principalmente de origem europeia
Sangue: seis microRNAs do soroAUC de 0,94 em validação com 48 mulheres (Moustafa, 2020)Pesquisa
Fezes: metabólitos de bactérias intestinais18 pacientes e 31 controles (Talwar, 2025)Pesquisa inicial
Sangue menstrual: células imunes do endométrio33 participantes, com menos células NK uterinas na doença (Shih, 2022)Pesquisa, com estudo francês em andamento
CA-125: proteína do sangueSensibilidade de 40% com corte em torno de 35 U/mL (Nisenblat, 2016)Sem recomendação para diagnóstico

O teste de saliva e o peso da prevalência

O estudo de validação do teste de saliva saiu na NEJM Evidence em 2025 (Bendifallah, 2025). Ele incluiu 971 mulheres de 18 a 43 anos com sintomas, em 17 centros franceses, e 77% delas tinham mesmo endometriose. Nesse cenário, um resultado positivo estava certo em 98,2% das vezes. A fabricante do teste, a Ziwig, financiou o estudo.

Longe dos centros especializados, porém, a proporção de doentes entre as testadas é menor, e isso muda a conta.

Chama-se valor preditivo positivo a chance de um resultado positivo estar certo. Com a mesma sensibilidade e a mesma especificidade, ele cai para cerca de 88% quando 30% das testadas têm a doença. Se forem 10%, cai para cerca de 65%. Ou seja, em um cenário de triagem, um em cada três resultados positivos seria falso.

O cálculo é uma ilustração deste guia e supõe que o teste se comporte do mesmo jeito em outras populações, o que ainda falta demonstrar.

Gráfico do valor preditivo positivo do teste de saliva para endometriose em três cenários de prevalência: 77%, 30% e 10%
Valor preditivo positivo do teste de saliva conforme a proporção de doentes entre as testadas (cálculo ilustrativo deste guia).

O que esses testes ainda não significam

Limites atuais: nenhum dos testes novos tem aprovação da FDA para diagnosticar endometriose, segundo reportagem do New York Times de setembro de 2026. A ESHRE recomenda não usar biomarcadores em sangue, tecido endometrial, sangue menstrual ou fluidos uterinos para esse diagnóstico. O protocolo do SUS, inclusive, manda abandonar marcadores como o CA-125. Além disso, um resultado negativo não descarta a doença, e um positivo não mostra onde estão as lesões.

Na França, o teste de saliva tem reembolso experimental desde fevereiro de 2025, para até 25 mil mulheres, enquanto as autoridades avaliam sua utilidade.

O preço divulgado fica em torno de 800 euros. No Reino Unido, o NICE, órgão que avalia tecnologias para o sistema público, propôs em 2026 o uso por três anos, enquanto se coletam evidências (Leonardi e Kalani, 2026). No Brasil, antes de pagar por um deles, confira o registro na Anvisa e pergunte ao médico o que o resultado mudaria na conduta.

Tratamento da endometriose: o que diz o consenso brasileiro de 2026

Em agosto de 2026, a Associação Brasileira de Endometriose e Ginecologia Minimamente Invasiva (SBE) e a Febrasgo lançaram um consenso de tratamento em dois capítulos. A Febrasgo é a federação das associações de ginecologia e obstetrícia.

O primeiro capítulo trata dos medicamentos para a dor, enquanto o segundo aborda as terapias complementares.

O ponto de partida é que o tratamento clínico suprime a doença, mas não a cura. Ele segue por anos, até o desejo de gestação ou até a menopausa.

Mulheres sem sintomas, por outro lado, não têm indicação universal de tratamento.

Infográfico do consenso brasileiro de endometriose de 2026: pilares da abordagem multidisciplinar e práticas sem evidência no tratamento
Resumo do consenso brasileiro de 2026. O texto original não fala em rastreio obrigatório: ele reserva os remédios que agem sobre os nervos para a dor de origem nervosa documentada. Toque na imagem para ampliar.

Tratamento hormonal de primeira linha

Anticoncepcionais hormonais combinados ou progestagênios isolados formam a primeira linha. O consenso prefere o uso contínuo, sem pausa para sangramento, e aceita o esquema cíclico. Nenhuma opção se mostrou superior às outras, então a escolha depende de contraindicações, efeitos colaterais, custo e preferência.

Em escala de 0 a 100, os hormônios reduziram a dor em 13 a 18 pontos a mais que o placebo, em meta-análise com 1.680 mulheres (As-Sanie, 2025). Ainda assim, de 11% a 19% das pacientes não melhoram. Outras, de 25% a 34%, voltam a ter dor em até 12 meses depois de parar o remédio.

Tratar também parece frear a doença. Em uma revisão de 2024, as lesões profundas progrediram em 21,4% das mulheres sem tratamento e em 12,4% das que usavam hormônio (Bandini, 2024). A comparação, porém, é indireta, entre estudos diferentes.

DIU hormonal: cobertura pelos planos de saúde desde outubro de 2026

O DIU hormonal com 52 mg de levonorgestrel libera o hormônio dentro do útero por anos.

Em um ensaio brasileiro com 82 mulheres, ele reduziu a dor em seis meses de forma semelhante a um agonista de GnRH (Petta, 2005). Os agonistas, também chamados de análogos, suspendem temporariamente a função dos ovários.

Em outro estudo, 405 mulheres operadas, a maioria com doença inicial, receberam progestagênio de longa ação (DIU ou injeção trimestral) ou pílula combinada. A dor caiu cerca de 40% nos dois grupos após três anos, com menos cirurgias repetidas ou tratamentos de segunda linha no primeiro (Cooper, 2024).

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que regula os planos, assinou em 18 de setembro de 2026 a Resolução Normativa 680.

Ela tornou obrigatória a cobertura do dispositivo e da inserção e vale desde 1º de outubro, como noticiou a Folha. A regra alcança mulheres com endometriose que têm contraindicação ou não se adaptaram ao anticoncepcional oral combinado, desde que o médico registre a indicação no pedido. No SUS, o mesmo critério vale desde a incorporação do DIU hormonal, em 2025.

Agonistas e antagonistas de GnRH: a segunda linha

Quando a primeira linha falha, entram os agonistas de GnRH.

O consenso exige que venham sempre com terapia de adição hormonal (add-back), uma dose baixa de hormônio que protege o osso e reduz os fogachos. Antagonistas orais de GnRH (elagolix, relugolix ou linzagolix) e inibidores da aromatase ficam para casos refratários

 De acordo com o consenso, os antagonistas ainda não estão disponíveis no Brasil.

Esses remédios reduzem a densidade dos ossos. Em uma meta-análise de 2026, mesmo com add-back, ela caiu em média 0,89% em seis meses e 1,5% em um ano com agonistas. Com dienogeste, um progestagênio oral de uso comum, a queda foi de 0,83% e 1,91% nos mesmos prazos, mas os estudos discordam entre si. Com antagonistas, quase sempre sem add-back, chegou a 2,17% em seis meses. Os autores consideram incerto o significado clínico dessas perdas. Elas não são motivo para interromper o remédio por conta própria.

Analgésicos e a dor que persiste

Analgésicos entram como apoio, em escada, com paracetamol, dipirona ou anti-inflamatórios no primeiro degrau. A base científica é menor do que se imagina, pois a revisão Cochrane sobre anti-inflamatórios na endometriose só pôde analisar um ensaio, com 24 mulheres (Brown, 2017). Opioides têm uso restrito no consenso.

Em parte das pacientes, o sistema nervoso passa a amplificar a dor, fenômeno chamado sensibilização central. Em um estudo exploratório, o questionário Central Sensitization Inventory (CSI) identificou pacientes com três ou mais síndromes de sensibilização central. A partir de 40 pontos, a sensibilidade foi de 78% e a especificidade, de 80% (Orr, 2022).

O consenso reserva os neuromoduladores, remédios que agem sobre os nervos, para quem tem dor neuropática ou nociplástica documentada. Há motivo para a cautela. Em mulheres com dor pélvica crônica sem lesão visível, por exemplo, a gabapentina não superou o placebo e causou mais efeitos adversos graves (Horne, 2020).

Cirurgia para endometriose: para quem

A cirurgia entra quando o tratamento clínico falha, causa efeitos intoleráveis ou tem contraindicação (As-Sanie, 2025). O protocolo do SUS acrescenta situações específicas, como endometriomas em crescimento ou maiores que 4 cm, obstrução parcial do intestino e infertilidade associada.

Para o endometrioma, a ESHRE prefere retirar a cápsula do cisto a apenas drená-lo, sempre com atenção à reserva ovariana, o estoque de óvulos. A doença profunda deve ir para centros com experiência. Nem a histerectomia, a retirada do útero, garante o fim dos sintomas. Cerca de 25% das mulheres voltam a ter dor pélvica e 10% precisam de nova cirurgia (As-Sanie, 2025).

Depois da operação, as diretrizes recomendam tratamento hormonal para quem não pretende engravidar logo, salvo contraindicação. A ESHRE sugere DIU hormonal ou anticoncepcional combinado por pelo menos 18 a 24 meses. Uma revisão Cochrane aponta menos recorrência da doença em até 12 meses com essa estratégia. A evidência, porém, é de baixa qualidade.

Fisioterapia pélvica, acupuntura e psicoterapia

O segundo capítulo do consenso trata do que vai além do remédio. Fisioterapia pélvica, com técnicas manuais ou eletroterapia, e acupuntura têm a evidência mais consistente para a dor.

Uma meta-análise de 2026 reuniu 33 ensaios e 2.323 mulheres (Zheng, 2026).

Fisioterapia, acupuntura e intervenções psicológicas reduziram a dor mais do que o cuidado convencional, mas os autores pedem cautela com o tamanho do efeito. Terapia cognitivo-comportamental e mindfulness podem ajudar na dor, na ansiedade e na depressão, e a ioga pode melhorar a qualidade de vida.

Para o consenso, esses recursos se somam ao tratamento, mas não o substituem. O protocolo do SUS adota tom mais cauteloso, pois afirma que a evidência não permite recomendar uma intervenção específica.

Gestrinona em implante e canabidiol: o que o consenso não recomenda

De acordo com o consenso, não há evidência científica de benefício dos implantes de gestrinona no tratamento da endometriose.

A gestrinona tem ação androgênica e pode causar aumento de pelos, queda de cabelo, alteração da voz ou aumento do clitóris. Em novembro de 2024, a Anvisa restringiu os implantes hormonais manipulados e proibiu o uso para fins estéticos ou de desempenho (RE 4.353/2024). Em outubro de 2026, doze sociedades médicas, entre elas a de endocrinologia (SBEM) e a Febrasgo, pediram à agência a proibição total.

O canabidiol passou por um ensaio brasileiro, o DREAMLAND, da USP de Ribeirão Preto. O estudo incluiu 102 mulheres já operadas, em uso de hormônio e com retorno da dor. Elas receberam canabidiol (até 150 mg por dia) ou placebo por dez semanas (Anelli, 2026). Nos dois grupos, cerca de 40% tiveram redução de pelo menos metade da dor, ou seja, o canabidiol não trouxe vantagem. O consenso também não recomenda o uso de rotina.

No SUS: o que mudou com o protocolo de 2026

O Ministério da Saúde aprovou um novo Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da Endometriose pela Portaria Conjunta nº 54, de 2 de junho de 2026. O documento, publicado em 29 de julho, substitui o de 2016 e traz estas mudanças:

  • o tratamento hormonal de primeira linha pode começar sem confirmação cirúrgica;
  • o desogestrel, incorporado em 2025, entra na primeira linha, assim como o anticoncepcional combinado e a medroxiprogesterona;
  • o DIU de levonorgestrel, também de 2025, fica para quem tem contraindicação ou não se adaptou ao anticoncepcional combinado;
  • agonistas de GnRH e danazol ficam para falha ou recidiva após seis meses de primeira linha e exigem diagnóstico confirmado por laparoscopia e biópsia;
  • o uso de agonistas de GnRH tem limite de seis meses, salvo avaliação especializada;
  • dienogeste e noretisterona de 10 mg ficaram fora da lista do SUS.

Alimentação e suplementos na endometriose: o que tem evidência

Em um levantamento canadense com 434 mulheres, 93,8% usavam ao menos uma terapia complementar.

Ao mesmo tempo, 61,9% sentiam que a dor não estava bem controlada (Gholiof, 2023). A procura por dieta e suplemento é compreensível, mas a evidência é escassa, e o consenso brasileiro insiste que nada disso substitui o tratamento.

Dieta mediterrânea, low-FODMAP, sem glúten e sem leite

O consenso avaliou os padrões alimentares mais citados e concluiu que as dietas mediterrânea e anti-inflamatória têm evidência escassa e heterogênea. A dieta com baixo teor de FODMAPs, açúcares que fermentam no intestino, pode aliviar sobretudo os sintomas intestinais.

Em um estudo retrospectivo, 72% das pacientes com endometriose e intestino irritável relataram melhora desses sintomas. Retirar o glúten, porém, não tem respaldo quando o único motivo é a endometriose, como também conclui uma análise de 2024 (van Haaps, 2024). Da mesma forma, o consenso não encontrou publicações que apoiem cortar leite e derivados.

Restrição sem diagnóstico tem custo, porque empobrece a dieta e pode mascarar a doença celíaca se o glúten sair antes dos exames. A recomendação geral da ESHRE é mais simples: alimentação saudável, menos álcool e atividade física regular.

Suplementos: o que os estudos mostram

As classes da tabela são uma classificação editorial deste guia. C indica dados conflitantes ou preliminares, e D, evidência insuficiente ou ausência de benefício. Nenhum suplemento chegou às classes A ou B, reservadas a benefício consistente em ensaios clínicos. As doses citadas são as dos estudos e não valem como recomendação.

Suplemento e classeO que os estudos mostram
Vitaminas C e E (classe C)Redução moderada da dor em alguns ensaios, mas com resultados heterogêneos. Os estudos usaram cerca de 1.000 mg de C e 1.200 UI de E por dia, por 8 a 12 semanas. Essa dose de vitamina E fica no limite superior de segurança e pode favorecer sangramento
Melatonina (classe C)Efeito moderado em alguns ensaios com 10 mg por dia
Vitamina D (classe C)Um pouco mais de dados que os demais, ainda inconsistentes
Ômega-3, curcumina, resveratrol, quercetina, N-acetilcisteína, zinco e ácido alfa-lipoico (classe D)Evidência insuficiente de benefício

Por que as meta-análises discordam

Três meta-análises recentes chegaram a conclusões diferentes. A primeira, com 9 ensaios controlados por placebo e 545 mulheres, não achou diferença em dor pélvica, cólica ou dor na relação.

Os autores concluíram que ainda não dá para recomendar suplementos (Salmeri, 2026). A segunda, com 21 ensaios e 1.626 participantes, encontrou menos dor com antioxidantes, mas com resultados muito heterogêneos (Zhong, 2025).

A terceira viu efeito apenas na cólica, e ele desaparecia nos estudos de melhor qualidade (Meneghetti, 2024). As conclusões mudam conforme os ensaios incluídos e o rigor de cada um.

Ainda assim, o consenso brasileiro admite vitaminas C e E ou melatonina como complemento, caso a caso e com orientação médica. No blog há um texto anterior sobre antioxidantes e uma seção sobre melatonina.

Endometriose e fertilidade

Cerca de um quarto das mulheres com endometriose relata infertilidade (26% na revisão de As-Sanie, 2025). A maioria, portanto, não tem essa queixa, e o Ministério da Saúde lembra que a doença não causa necessariamente infertilidade. Para quem quer engravidar, as diretrizes mudam a conduta em alguns pontos.

  • O tratamento hormonal da endometriose não melhora a fertilidade, por isso a ESHRE recomenda não usar supressão ovariana com esse objetivo.
  • A cirurgia pode ajudar em casos selecionados, sobretudo na doença mínima ou leve. Em seguida, o índice de fertilidade da endometriose (EFI) ajuda a estimar as chances.
  • A reprodução assistida não agrava a endometriose, pois não aumenta a recorrência. Também não há indicação de operar o endometrioma de rotina antes do procedimento.
  • Quem tem doença extensa nos ovários deve conversar sobre preservação da fertilidade.

No blog há também um texto sobre como melhorar a fertilidade em homens e mulheres.

Gravidez trata endometriose?

A gravidez não trata a endometriose.

De acordo com a ESHRE, o médico não deve aconselhá-la com esse objetivo, porque a gestação nem sempre melhora os sintomas ou freia a doença.

As diretrizes citam possível aumento do risco de aborto de primeiro trimestre e de gravidez ectópica. Ainda assim, as complicações ligadas diretamente às lesões são raras, e as diretrizes não indicam pré-natal diferente do habitual.

Endometriose e câncer de ovário: o tamanho real do risco

Em 2024, um estudo de Utah comparou 78.893 mulheres com endometriose a mulheres sem a doença, na proporção de uma para cinco (Barnard, 2024). O risco de câncer de ovário foi 4,2 vezes maior no grupo com endometriose.

Em quem tinha doença profunda ou endometrioma, foi 9,7 vezes maior. Números assim assustam, mas descrevem risco relativo.

Em termos absolutos, a diferença é pequena, como mostra a tabela. As linhas não medem a mesma coisa: o estudo de Utah conta os casos do período de acompanhamento, e as revisões estimam o risco da vida toda.

Fonte e grupoO que encontrou
Barnard, 2024, em todas as formas da doençaRisco 4,2 vezes maior, ou cerca de 10 casos a mais a cada 10 mil mulheres no período do estudo
Barnard, 2024, na doença profunda ou no endometriomaRisco 9,7 vezes maior, ou cerca de 27 casos a mais a cada 10 mil mulheres no período do estudo
Meta-análise de Kvaskoff, 2021Risco 1,9 vez maior, ou 2,5% ao longo da vida, contra 1,3% na população geral
Revisão de Leone Roberti Maggiore, 2026Risco cerca de 2 vezes maior, ou 1,9% ao longo da vida

O que esse risco não significa

Em números absolutos: pela estimativa de 2,5% ao longo da vida, mais de 97 em cada 100 mulheres com endometriose nunca terão câncer de ovário.

Por isso as diretrizes não recomendam rastreamento de câncer de ovário nem cirurgia preventiva de rotina (Bogani, 2026; Leone Roberti Maggiore, 2026). O uso prolongado de anticoncepcional combinado, inclusive, está associado a menor risco desse câncer. Uma avaliação individual do risco faz mais sentido entre 40 e 60 anos, depois da menopausa ou diante de endometrioma acima de 9 cm (Ioannidou, 2025).

 

Endometriose na adolescência e na menopausa

Na adolescência

A diretriz do ACOG de 2026 vale também para adolescentes. Cólica que provoca faltas frequentes à escola precisa de avaliação, sobretudo quando há histórico familiar, primeira menstruação precoce, ciclos curtos ou malformação genital obstrutiva.

O tratamento inicial é o mesmo das adultas, com anticoncepcional hormonal ou progestagênio, e a ESHRE não recomenda o CA-125 nessa faixa etária. No anúncio federal de junho de 2026, a estimativa foi de 2 milhões de adolescentes com endometriose no país.

Na menopausa e na reposição hormonal

Os sintomas costumam aliviar depois da menopausa, mas a doença pode continuar ativa. Quem tem histórico de endometriose e precisa de terapia hormonal pode usá-la, mas com um cuidado.

A ESHRE recomenda evitar o estrogênio isolado, por possível aumento do risco de transformação maligna, e preferir o esquema combinado com progestagênio. Depois de menopausa cirúrgica, a orientação é manter a terapia combinada pelo menos até a idade da menopausa natural.

A retirada precoce dos dois ovários, segundo a mesma diretriz, acelera a perda óssea e se associa a mais demência e doença cardiovascular. Há mais sobre o tema nos textos sobre menopausa do blog.

O que há de novo sobre endometriose em 2026

A linha do tempo reúne as principais novidades do ano.

  • Janeiro: sai o ensaio DREAMLAND, em que o canabidiol não superou o placebo na dor.
  • Março: o ACOG publica sua primeira diretriz de diagnóstico e aceita o diagnóstico clínico presumido.
  • Junho: governo federal e Instituto Alana anunciam R$ 60 milhões para pesquisa em endometriose, dor pélvica e saúde menstrual.
  • Julho: o SUS ganha um novo protocolo (PCDT), que substitui o de 2016.
  • Agosto: SBE e Febrasgo lançam o consenso brasileiro de tratamento.
  • Setembro: a ANS aprova a cobertura do DIU hormonal para endometriose pelos planos de saúde.
  • Outubro: a cobertura do DIU entra em vigor; sociedades médicas pedem a proibição de implantes hormonais manipulados.
  • Ao longo do ano: saem as diretrizes alemã e canadense, além de revisões que confirmam o baixo risco absoluto de câncer de ovário.

Quando procurar avaliação médica

Procure avaliação se a cólica faz você perder aula, trabalho ou compromissos, se piora a cada ano ou se não cede com anti-inflamatório. O mesmo vale para dor na relação, dor para evacuar ou urinar durante a menstruação e dificuldade para engravidar depois de um ano de tentativas.

Quem conduz o diagnóstico e o tratamento é o ginecologista, de preferência com experiência na doença.

Enquanto aguarda a consulta, anote por dois ou três ciclos os dias de dor, a nota de 0 a 10, o que você tomou e o que deixou de fazer. Leve exames antigos, inclusive os normais. Esse registro ajuda porque o diagnóstico começa pela história.

______________________________________________________________________________________________________

Perguntas frequentes sobre endometriose

Endometriose tem cura?

A endometriose não tem cura definitiva, mas na maioria dos casos tem controle. O tratamento hormonal reduz a dor na maior parte das pacientes enquanto está em uso. A cirurgia remove as lesões visíveis, porém elas podem voltar. Em geral, os sintomas diminuem depois da menopausa.

Qual exame detecta a endometriose?

O ultrassom transvaginal com preparo intestinal e a ressonância magnética da pelve identificam endometriomas e lesões profundas. Nenhum dos dois enxerga bem a doença superficial, então um exame normal não descarta o diagnóstico. A laparoscopia, cirurgia por vídeo, fica para casos selecionados.

O teste de saliva já substitui os outros exames?

O teste de saliva ainda não substitui os outros exames. O estudo de validação mostrou sensibilidade de 97,3% e especificidade de 94,1% em centros especializados da França, mas falta repetir o resultado em outras populações. Além disso, as diretrizes atuais não recomendam biomarcadores para diagnosticar endometriose.

Endometriose pode virar câncer?

A transformação maligna de uma lesão é rara, estimada em 0,5% a 1% dos casos, e ocorre quase sempre no ovário. Contando todos os tumores de ovário, o risco ao longo da vida passa de cerca de 1,3% para 2,5%. Como o risco absoluto continua baixo, as diretrizes não indicam rastreamento.

Quem tem endometriose consegue engravidar?

A maioria das mulheres com endometriose não relata infertilidade, embora cerca de 26% tenham essa dificuldade. Quando a gravidez não vem, as opções são cirurgia em casos selecionados ou reprodução assistida, já que o tratamento hormonal da endometriose não melhora a fertilidade.

O plano de saúde cobre o DIU hormonal para endometriose?

Sim: desde 1º de outubro de 2026, os planos de saúde cobrem o DIU hormonal para endometriose de quem cumpre os critérios da ANS. A Resolução Normativa 680 obriga a cobertura do dispositivo e da inserção quando há contraindicação ou falta de adaptação ao anticoncepcional oral combinado. A indicação precisa constar no pedido médico.

Dieta sem glúten ajuda na endometriose?

Não há evidência para retirar o glúten apenas por causa da endometriose, de acordo com o consenso brasileiro de 2026. Quem tem sintomas intestinais, por outro lado, pode se beneficiar de uma dieta com baixo teor de FODMAPs, com orientação profissional.

Implante de gestrinona trata endometriose?

O consenso brasileiro de 2026 afirma que não há evidência científica de benefício do implante de gestrinona na endometriose. Além disso, a gestrinona tem efeitos androgênicos, e a Anvisa restringe os implantes hormonais manipulados desde 2024.

Canabidiol funciona para a dor da endometriose?

No ensaio brasileiro DREAMLAND, com 102 mulheres, o canabidiol não superou o placebo na dor da endometriose. O consenso de 2026 também não recomenda o uso de rotina.

Quem tem endometriose pode fazer reposição hormonal na menopausa?

Quem tem histórico de endometriose pode fazer reposição hormonal na menopausa, desde que com avaliação individual. A diretriz europeia recomenda evitar o estrogênio isolado e preferir a terapia combinada com progestagênio ou progesterona micronizada , inclusive depois de menopausa cirúrgica.

Endometriose é hereditária?

A endometriose é hereditária em parte

Ter mãe ou irmã com a doença aumenta o risco, e estudos com gêmeas atribuem à genética cerca de metade da variação desse risco. Ainda não existe, porém, teste genético para confirmar ou prever a endometriose.

________________________________________________________________________________________________

Referências

As referências estão agrupadas por tema, na ordem do guia, e os links levam à fonte original.

Diretrizes e consensos sobre endometriose

  1. Troncon JK, Benetti-Pinto CL, Yela D, et al. Tratamento clínico farmacológico da dor pélvica associada à endometriose. In: Consenso da Associação Brasileira de Endometriose e Ginecologia Minimamente Invasiva. São Paulo: SBE/Febrasgo; 2026. Cap. 1, p. 1-37. PDF no site da SBE
  2. Benetti-Pinto CL, Yela D, Malvezzi H, et al. Tratamento clínico complementar (não farmacológico). In: Consenso da Associação Brasileira de Endometriose e Ginecologia Minimamente Invasiva. São Paulo: SBE/Febrasgo; 2026. Cap. 2, p. 1-27. PDF no site da SBE
  3. Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Endometriose. Portaria Conjunta SAES/SAPS/SCTIE nº 54, de 2 de junho de 2026. Brasília: Conitec; 2026. PDF no portal da Conitec
  4. Conselho Nacional de Secretários de Saúde. Conass Informa nº 148/2026: publicada a Portaria Conjunta SAES/SAPS/SCTIE nº 54, que aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Endometriose. 29 jul. 2026. conass.org.br
  5. American College of Obstetricians and Gynecologists. Diagnosis of Endometriosis: ACOG Clinical Practice Guideline No. 11. Obstet Gynecol. 2026;147(3):432-448. doi:10.1097/AOG.0000000000006181
  6. Becker CM, Bokor A, Heikinheimo O, et al. ESHRE guideline: endometriosis. Hum Reprod Open. 2022;2022(2):hoac009. doi:10.1093/hropen/hoac009
  7. Burghaus S, Schäfer SD, Bär KJ, et al. Diagnosis and Therapy of Endometriosis. Guideline of the DGGG, OEGGG and SGGG (S2k-Level, AWMF Registry No. 015/045, April 2025). Geburtshilfe Frauenheilkd. 2026;86(2):133-188. doi:10.1055/a-2760-4867
  8. Yong PJ, Allaire C, Bedaiwy M, et al. Guideline No. 468: Clinical Management of Endometriosis. J Obstet Gynaecol Can. 2026;48(6):103382. doi:10.1016/j.jogc.2026.103382
  9. As-Sanie S, Mackenzie SC, Morrison L, et al. Endometriosis: A Review. JAMA. 2025;334(1):64-78. doi:10.1001/jama.2025.2975
  10. Taylor HS, Kotlyar AM, Flores VA. Endometriosis is a chronic systemic disease: clinical challenges and novel innovations. Lancet. 2021;397(10276):839-852. doi:10.1016/S0140-6736(21)00389-5
  11. Urazbayeva G, Amirtayeva S, Kurmanova A, et al. Epidemiology, Risk Factors, Diagnosis, and Comorbidities of Endometriosis: An Umbrella Review. J Clin Med. 2026;15(12):4583. doi:10.3390/jcm15124583
  12. Chiaffarino F, Cipriani S, Ricci E, et al. Endometriosis and irritable bowel syndrome: a systematic review and meta-analysis. Arch Gynecol Obstet. 2021;303(1):17-25. doi:10.1007/s00404-020-05797-8
  13. Gholiof M, Adamson-De Luca E, Foster WG, et al. Prevalence of Use and Perceived Effectiveness of Medical, Surgical, and Alternative Therapies for Endometriosis Pain in Canadians. J Obstet Gynaecol Can. 2023;45(1):11-20. doi:10.1016/j.jogc.2022.11.003
  14. Bandini V, Giola F, Ambruoso D, et al. The natural evolution of untreated deep endometriosis and the effect of hormonal suppression: A systematic literature review and meta-analysis. Acta Obstet Gynecol Scand. 2024;103(9):1722-1735. doi:10.1111/aogs.14887
  15. Brasil. Ministério da Saúde. Endometriose. Saúde de A a Z. gov.br/saude
  16. Rahmioglu N, Mortlock S, Ghiasi M, et al. The genetic basis of endometriosis and comorbidity with other pain and inflammatory conditions. Nat Genet. 2023;55(3):423-436. doi:10.1038/s41588-023-01323-z
  17. Pais AS, Almeida-Santos T. Recent insights explaining susceptibility to endometriosis: from genetics to environment. WIREs Mech Dis. 2023;15(6):e1624. doi:10.1002/wsbm.1624
  18. Cousins FL, McKinnon BD, Mortlock S, et al. New concepts on the etiology of endometriosis. J Obstet Gynaecol Res. 2023;49(4):1090-1105. doi:10.1111/jog.15549
  19. Saunders PTK. Insights from genomic studies on the role of sex steroids in the aetiology of endometriosis. Reprod Fertil. 2022;3(2):R51-R65. doi:10.1530/RAF-21-0078
  20. Anglesio MS, Papadopoulos N, Ayhan A, et al. Cancer-Associated Mutations in Endometriosis without Cancer. N Engl J Med. 2017;376(19):1835-1848. doi:10.1056/NEJMoa1614814
  21. Suda K, Nakaoka H, Yoshihara K, et al. Clonal Expansion and Diversification of Cancer-Associated Mutations in Endometriosis and Normal Endometrium. Cell Rep. 2018;24(7):1777-1789. doi:10.1016/j.celrep.2018.07.037
  22. Ioannidou A, Sakellariou M, Sarli V, et al. New Evidence About Malignant Transformation of Endometriosis: A Systematic Review. J Clin Med. 2025;14(9):2975. doi:10.3390/jcm14092975
  23. Garcia Garcia JM, Vannuzzi V, Donati C, et al. Endometriosis: Cellular and Molecular Mechanisms Leading to Fibrosis. Reprod Sci. 2023;30(5):1453-1461. doi:10.1007/s43032-022-01083-x
  24. Vallvé-Juanico J, Houshdaran S, Giudice LC. The endometrial immune environment of women with endometriosis. Hum Reprod Update. 2019;25(5):564-591. doi:10.1093/humupd/dmz018
  25. Chen S, Liu Y, Zhong Z, et al. Peritoneal immune microenvironment of endometriosis: Role and therapeutic perspectives. Front Immunol. 2023;14:1134663. doi:10.3389/fimmu.2023.1134663
  26. Jiang I, Yong PJ, Allaire C, et al. Intricate Connections between the Microbiota and Endometriosis. Int J Mol Sci. 2021;22(11):5644. doi:10.3390/ijms22115644
  27. Talwar C, Davuluri GVN, Kamal AHM, et al. Identification of distinct stool metabolites in women with endometriosis for non-invasive diagnosis and potential for microbiota-based therapies. Med. 2025;6(2):100517. doi:10.1016/j.medj.2024.09.006
  28. Bendifallah S, Roman H, Suisse S, et al. Validation of a Saliva Micro-RNA Signature for Endometriosis. NEJM Evid. 2025;4(11):EVIDoa2400195. doi:10.1056/EVIDoa2400195
  29. Schoeman EM, Bringans S, Peters K, et al. Identification of plasma protein biomarkers for endometriosis and the development of statistical models for disease diagnosis. Hum Reprod. 2025;40(2):270-279. doi:10.1093/humrep/deae278
  30. Moustafa S, Burn M, Mamillapalli R, et al. Accurate diagnosis of endometriosis using serum microRNAs. Am J Obstet Gynecol. 2020;223(4):557.e1-557.e11. doi:10.1016/j.ajog.2020.02.050
  31. Shih AJ, Adelson RP, Vashistha H, et al. Single-cell analysis of menstrual endometrial tissues defines phenotypes associated with endometriosis. BMC Med. 2022;20(1):315. doi:10.1186/s12916-022-02500-3
  32. Nisenblat V, Bossuyt PM, Shaikh R, et al. Blood biomarkers for the non-invasive diagnosis of endometriosis. Cochrane Database Syst Rev. 2016;2016(5):CD012179. doi:10.1002/14651858.CD012179
  33. Leonardi M, Kalani S. A new saliva test for endometriosis is in trials: what this and other new endo tests mean for you. The Conversation; ago. 2026. theconversation.com
  34. University of Cincinnati. Do endometriosis tests really work? Set. 2026. Repercussão de reportagem do New York Times de 29 set. 2026. uc.edu
  35. Petta CA, Ferriani RA, Abrao MS, et al. Randomized clinical trial of a levonorgestrel-releasing intrauterine system and a depot GnRH analogue for the treatment of chronic pelvic pain in women with endometriosis. Hum Reprod. 2005;20(7):1993-1998. doi:10.1093/humrep/deh869
  36. Cooper KG, Bhattacharya S, Daniels JP, et al. Long acting progestogens versus combined oral contraceptive pill for preventing recurrence of endometriosis related pain: the PRE-EMPT pragmatic, parallel group, open label, randomised controlled trial. BMJ. 2024;385:e079006. doi:10.1136/bmj-2023-079006
  37. Desilets J, Lakabi R, Olsthoorn A, et al. Effect of Medical Therapies for Endometriosis on Bone Health: A Systematic Review and Meta-analysis. Obstet Gynecol. 2026;148(2):205-215. doi:10.1097/AOG.0000000000006241
  38. Chen I, Veth VB, Choudhry AJ, et al. Pre- and postsurgical medical therapy for endometriosis surgery. Cochrane Database Syst Rev. 2020;11(11):CD003678. doi:10.1002/14651858.CD003678.pub3
  39. Brown J, Crawford TJ, Allen C, et al. Nonsteroidal anti-inflammatory drugs for pain in women with endometriosis. Cochrane Database Syst Rev. 2017;1(1):CD004753. doi:10.1002/14651858.CD004753.pub4
  40. Orr NL, Wahl KJ, Lisonek M, et al. Central sensitization inventory in endometriosis. Pain. 2022;163(2):e234-e245. doi:10.1097/j.pain.0000000000002351
  41. Horne AW, Vincent K, Hewitt CA, et al. Gabapentin for chronic pelvic pain in women (GaPP2): a multicentre, randomised, double-blind, placebo-controlled trial. Lancet. 2020;396(10255):909-917. doi:10.1016/S0140-6736(20)31693-7
  42. Anelli GB, Ratochinski R, Oliveira IGC, et al. Cannabidiol-Enriched Extract Oil for Postoperative Management of Chronic Pelvic Pain Secondary to Endometriosis: A Randomized Clinical Trial (DREAMLAND Study). Cannabis Cannabinoid Res. 2026:25785125251413989. doi:10.1177/25785125251413989
  43. Zheng X, Wang Y, Li H, et al. Comparative Effectiveness of Non-Pharmacological Interventions for Pain and Quality of Life in Women with Endometriosis: A Systematic Review and Network Meta-Analysis. J Pain Res. 2026;19:577080. doi:10.2147/JPR.S577080
  44. Salmeri N, Ragusi A, Buffo C, et al. Dietary Supplements for Endometriosis-Associated Pain: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Placebo-Controlled Trials. Gynecol Obstet Invest. 2026;91(1):101-114. doi:10.1159/000545414
  45. Zhong Y, Qiao X, Huang X, et al. The effects of antioxidant supplementation on pain, oxidative stress markers, and clinical pregnancy rate in women with endometriosis: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Front Med (Lausanne). 2025;12:1694281. doi:10.3389/fmed.2025.1694281
  46. Meneghetti JK, Pedrotti MT, Coimbra IM, et al. Effect of Dietary Interventions on Endometriosis: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. Reprod Sci. 2024;31(12):3613-3623. doi:10.1007/s43032-024-01701-w
  47. van Haaps AP, Brouns F, Schreurs AMF, et al. A gluten-free diet for endometriosis patients lacks evidence to recommend it. AJOG Glob Rep. 2024;4(3):100369. doi:10.1016/j.xagr.2024.100369
  48. Barnard ME, Farland LV, Yan B, et al. Endometriosis Typology and Ovarian Cancer Risk. JAMA. 2024;332(6):482-489. doi:10.1001/jama.2024.9210
  49. Kvaskoff M, Mahamat-Saleh Y, Farland LV, et al. Endometriosis and cancer: a systematic review and meta-analysis. Hum Reprod Update. 2021;27(2):393-420. doi:10.1093/humupd/dmaa045
  50. Leone Roberti Maggiore U, Vignali M, Kvaskoff M, et al. Endometriosis and ovarian cancer: epidemiological evidence, molecular insights, and clinical decision-making. Hum Reprod Update. 2026;32(5):509-539. doi:10.1093/humupd/dmag011
  51. Bogani G, Moore KN, Ray-Coquard I, et al. Endometriosis and ovarian cancer risk. Gynecol Oncol. 2026;209:88-98. doi:10.1016/j.ygyno.2026.05.004
  52. Agência Nacional de Saúde Suplementar. Resolução Normativa nº 680, de 18 de setembro de 2026: cobertura do DIU hormonal para endometriose, em vigor desde 1º out. 2026. Notícia do Portal Afya. portal.afya.com.br
  53. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RE nº 4.353, de novembro de 2024, sobre implantes hormonais manipulados. Notícia da Febrasgo. febrasgo.org.br
  54. Carta do Rio de Janeiro: sociedades médicas pedem a proibição de implantes hormonais manipulados. 20º Congresso Mundial de Menopausa, out. 2026. Notícia do Portal Afya. portal.afya.com.br
  55. Correio Braziliense. Governo anuncia investimento em pesquisas sobre endometriose. 9 jun. 2026. correiobraziliense.com.br
  56. Portal Afya. Projeto Endometriose treinou 1,2 mil profissionais de saúde. portal.afya.com.br
  57. Medicina S/A. Notícia sobre o lançamento do consenso da SBE no 10º Congresso Brasileiro de Cirurgia Ginecológica Minimamente Invasiva e Endometriose. 10 ago. 2026. medicinasa.com.br
  58. Folha de S.Paulo. Testes de saliva e de sangue buscam detectar endometriose sem cirurgia. 10 out. 2026. folha.uol.com.br
  59. Folha de S.Paulo. Planos de saúde passam a cobrir DIU hormonal contra endometriose. Set. 2026. folha.uol.com.br
  60. Medscape. Novo consenso muda o fluxo do tratamento da endometriose. 28 ago. 2026. medscape.com
  61. Medscape. A dor como critério: as mudanças no diagnóstico da endometriose. 25 maio 2026. medscape.com
  62. Medscape. Do tabu aos exames: o sangue menstrual pode ajudar no diagnóstico? 2026. medscape.com
  63. Medscape. O caminho para o tratamento da endometriose começa no intestino? 23 out. 2024. medscape.com
  64. Medscape. Estudo revela risco maior de câncer de ovário em mulheres com endometriose. medscape.com
  65. Medscape. Capacitação para endometriose pretende reduzir negligência e aumentar diagnósticos. medscape.com

Sobre o autor: Dr. Roberto Franco do Amaral é médico há 23 anos, especialista em Medicina Laboratorial (CRM-SP 111370 · RQE 50521), com atuação em Campinas, SP.

Conteúdo educativo, que não substitui avaliação médica individual (última revisão em outubro de 2026).

Dr. Roberto Franco do Amaral Neto – Médico em Campinas (SP) · CRM-SP 111370 · RQE 50521 (Medicina Laboratorial)

Uma resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Compartilhe agora

Facebook
X
WhatsApp
Reddit
Email

Leia Também

Dr. Roberto Franco do Amaral Neto – Médico em Campinas (SP) · CRM-SP 111370 · RQE 50521 (Medicina Laboratorial)

Inscreva-se na Newsletter

Se inscreva em minha Newsletter e fique sabendo das novas notícias e acontecimentos.