
Neste artigo, consolidamos as evidências mais robustas sobre as aplicações do ácido fólico( vitamina B9) em medicina preventiva e discutimos quando (e quando não) recorrer à administração parenteral.

O Papel Central do Ácido Fólico no Metabolismo
Antes de explorar as aplicações clínicas específicas, é útil entender por que o ácido fólico/ metilfolato é tão importante.
O ácido fólico (vitamina B9) atua como cofator essencial na síntese de nucleotídeos e na metilação de DNA. Sua conversão a 5-metiltetrahidrofolato (5-Me-THF), catalizada pela enzima metilenotetrahidrofolato redutase (MTHFR), é crucial para a remethilação de homocisteína a metionina — um processo central na regulação do metabolismo de um carbono.
Este metabolismo, quando adequadamente mantido, afeta:
- Síntese de ácidos nucleicos
- Metilação de DNA e proteínas
- Metabolismo de homocisteína (com impactos cardio e cerebrovasculares)
- Integridade cromossômica
- Processos neuroquímicos
Quando há deficiência folato ou polimorfismos em genes chave (como MTHFR C677T), os efeitos cascata podem ser deletérios.
Agora, vejamos as aplicações clínicas concretas.
1. Ácido Fólico e Esteatose Hepática (NAFLD)
A doença hepática gordurosa não-alcoólica (NAFLD) é a causa mais comum de doença hepática e a principal causa de doença hepática terminal em muitos países.
Seu mecanismo é multifatorial, mas há uma conexão importante com o metabolismo folato-homocisteína.
A Evidência
Uma meta-análise publicada no American Journal of Clinical Nutrition (2022) analisou 22 estudos observacionais compreendendo 30.368 participantes. Os resultados foram claros:
- Homocisteína elevada foi associada a um risco aumentado de NAFLD (OR: 1,96; IC 95%: 1,57-2,45)
- Folato sérico baixo foi associado a risco aumentado de NAFLD (OR: 0,75; IC 95%: 0,58-0,99 para valores maiores de folato)
Estudos em modelos animais mostraram que a HOMOCISTEÍNA ELEVADA induzida por dieta promove lesão hepática, esteatose hepatocelular e que a suplementação com folato tem efeito protetor ao fígado, possivelmente através da redução do estresse oxidativo e da melhora da função mitocondrial.
Mecanismo Proposto
A homocisteína elevada danifica o endotélio ( camada interna dos vasos) hepático, induz estresse oxidativo e promove inflamação.
O ácido fólico, ao reduzir homocisteína, interrompe este ciclo. Além disso, o folato participa ativamente na regulação epigenética do metabolismo lipídico e na síntese de fosfolípides essenciais à integridade das membranas hepatocelulares.
Implicações Clínicas
Para pacientes com ESTEATOSE HEPÁTICA ou em risco (obesidade, síndrome metabólica, diabetes), a suplementação com ácido fólico (5-10 mg/dia) combinada com vitamina B12 é uma intervenção de baixo custo e baixo risco que merece consideração, especialmente quando há elevação de homocisteína sérica.
2. Metilfolato na Depressão: De Adjuvante a Agente Ativo
Se há um campo onde a pesquisa com folato evoluiu mais nos últimos 15 anos, é o da psiquiatria.
E aqui, a forma metilada (5-metiltetrahidrofolato ou 5-MTHF, também chamado L-metilfolato) emerge como particularmente interessante.
Prevalência de Deficiência Folato em Deprimidos
Um dado sobressai na literatura: aproximadamente um terço dos pacientes deprimidos tem deficiência de folato.
E estudos documentam que deprimidos com deficiência folato apresentam resposta reduzida ao tratamento antidepressivo comparado com aqueles com níveis adequados de folato.
O Mecanismo: Metilação e Neurotransmissores
Aqui está a chave para entender por que metilfolato é tão relevante em psiquiatria.
O 5-MTHF participa na remethilação de homocisteína a metionina — um processo crucial. Metionina é então convertida a S-adenosilmetionina (SAME), a molécula mais importante de doação de grupos metila do corpo.
E SAME é essencial para a síntese de monoaminas: serotonina, dopamina e noradrenalina.
Sem a participação adequada de 5-MTHF, os níveis de SAME diminuem no líquor (líquido cerebrospinal), resultando em síntese reduzida de neurotransmissores e consequentemente, contribuindo ao desenvolvimento de depressão.
Além disso, metilfolato aumenta a síntese de tetrahidrobiopterina (BH4), um cofator enzimático crucial para a atividade de triptofano e tirosina hidroxilase, enzimas rate-limiting na síntese de serotonina, dopamina e noradrenalina.
Evidência Clínica: Estudos em Depressão Geral
Um estudo duplo-cego multicêntrico com 96 idosos com demência leve a moderada e depressão comparou 5-MTHF (50 mg/dia) com trazodona (100 mg/dia, tricíclico clássico) durante 8 semanas:
- MTHF reduziu escore de depressão (Hamilton Depression Rating Scale, HDRS) de 23±5 para 18±6 após 8 semanas
- Trazodona reduziu de 23±3 para 19±5 — diferença não significativa
- Memória verbal (teste de Rey) melhorou significativamente apenas no grupo MTHF
Outro estudo aberto com 20 idosos deprimidos tratados com MTHF 50 mg/dia durante 6 semanas documentou que 81% foram respondedores (melhora depressão significativa).
Metilfolato como Adjuvante a Antidepressivos
Onde a evidência é mais forte é no uso de metilfolato como terapia adjuvante em pacientes que não responderam adequadamente ao antidepresssivos sozinhos
Uma série de estudos randomizados duplo-cegos demonstrou:
- Adição de l-metilfolato 15 mg/dia a antidepresssivos em pacientes inadequadamente respondentes produziu resposta significativamente superior comparado com antidepresssivos + placebo
Uma meta-análise sistemática publicada em Pharmacopsychiatry (2022) consolidou dados de múltiplos ensaios de l-metilfolato como augmentação. Conclusão: l-metilfolato pode ter eficácia modesta mas clinicamente significativa em adultos com transtorno depressivo maior que não responderam completamente a antidepresssivos
Uma análise retrospectiva comparando pacientes emantidepresssivos monotherapy versus aqueles em combinação com l-metilfolato (7,5 ou 15 mg) documentou que a potencialização com metilfolato:
- Foi mais eficaz na melhora de sintomas depressivos
- Levou a melhora mais rápida
- Teve menos descontinuações de medicação
- Mesma taxa de efeitos adversos
Tratamento da depressão: é hora de considerar o ácido fólico e a vitamina B12.
Revisamos as descobertas sobre a baixa concentração de folato plasmático e, particularmente, de folato eritrocitário, bem como a baixa concentração de vitamina B12 em casos de depressão maior.
Em um amplo estudo populacional realizado na Noruega, o aumento da homocisteína plasmática foi associado a um risco aumentado de depressão, mas não de ansiedade. Atualmente, existem evidências substanciais de uma diminuição comum nos níveis séricos/eritrocitários de folato e de vitamina B12, bem como um aumento na homocisteína plasmática em casos de depressão. Além disso, o polimorfismo MTHFR C677T, que prejudica o metabolismo da homocisteína, apresenta-se mais frequente em pacientes com depressão, o que reforça essa associação.
Com base nos dados atuais, sugerimos que doses orais de ácido fólico (800 µg diários) e vitamina B12 (1 mg diário) sejam consideradas para melhorar os resultados do tratamento da depressão.
Papel Especial do Metilfolato em Pacientes com Polimorfismo MTHFR
Um achado farmacogenômico importante: aproximadamente 60% da população dos EUA carrega o polimorfismo MTHFR C677T.
Em homozigotos TT, a atividade enzimática de MTHFR é reduzida, prejudicando a conversão de ácido fólico a 5-MTHF.
Uma meta-análise de 2007 demonstrou que o genótipo TT (comparado ao CC) estava associado a risco aumentado de depressão, transtorno bipolar e esquizofrenia.
Nestes pacientes, metilfolato é superior ao ácido fólico regular, pois bypassa o passo de redução catalizado por MTHFR , o 5-MTHF já é a forma ativa.
Um Detalhe Crítico: Evitar Mascaramento de B12
Assim como com ácido fólico em altas doses, doses elevadas de metilfolato podem mascarar deficiência de vitamina B12 (permitindo melhora de sintomas hematológicos enquanto manifestações neurológicas progredem).
Sempre avaliar B12 sérico antes de iniciar folato ou metilfolato em altas doses.
3. Ácido Fólico e Redução de Eventos Suicidas: Um Achado Inesperado
Este talvez seja o achado mais surpreendente dos últimos anos na literatura farmacoepidemiológica.
O Estudo Principal
Uma investigação de grande porte realizada pela Universidade de Chicago, publicada no JAMA Psychiatry em setembro de 2022, analisou dados de seguros de saúde de 866.586 pacientes durante um período de 24 meses. O desenho foi um estudo de coorte com exposição dinâmica: comparou-se a taxa de eventos suicidas (tentativas de suicídio e automutilação intencional) durante períodos em que o paciente estava tomando ácido fólico versus períodos sem uso.
O resultado foi contundente:
- Redução de 44% no risco de eventos suicidas durante o uso de ácido fólico (HR: 0,56; IC 95%: 0,48-0,65)
- Para cada mês adicional de prescrição, havia redução de 5% adicional no risco
- O efeito foi consistente entre homens e mulheres, e em todas as faixas etárias
- A dose típica usada foi 1 mg/dia (o limite superior tolerável)
Controlando para Viés de Confundimento
Os autores foram rigorosos. Ajustaram para:
- Idade e sexo
- Diagnósticos psiquiátricos prévios
- Medicações que reduzem folato (como metotrexato, anticonvulsivantes)
- Histórico de eventos suicidas anteriores
- Gravidez (fator importante, já que gestantes frequentemente usam ácido fólico)
Mesmo com todos estes ajustes, o efeito protetor manteve-se robusto.
Possível Mecanismo :
Ainda não está completamente elucidado. Hipóteses incluem:
- Metilação de DNA e neurotransmissores: O folato é essencial para a síntese de S-adenosilmetionina (SAME), o principal doador de metila no corpo. SAME é necessário para a síntese de dopamina, serotonina e noradrenalina — neurotransmissores centrais no humor.
- Redução de homocisteína: Homocisteína elevada tem sido associada a depressão e a comportamento suicida em alguns estudos.
- Metilação de genes de resiliência: O folato pode influenciar a expressão epigenética de genes relacionados à resiliência psicológica.
Um Detalhe Crucial
O estudo investigou se o efeito era simplesmente atribuível a “pessoas que se cuidam” (viés de seleção, gente que toma suplementos sendo mais interessada em saúde).
Os autores testaram isso usando vitamina B12 como controle: se o efeito fosse apenas “viés de pessoa cuidadosa”, B12 também deveria mostrar proteção.
Não mostrou. Isto reforça que há algo específico com ácido fólico.
Implicações Clínicas
Em pacientes com transtorno bipolar, depressão maior ou ideação suicida (especialmente aqueles com níveis baixos de folato ou que usam medicações que reduzem folato), a avaliação de folato sérico e a suplementação podem ser consideradas como parte de uma abordagem integrada. Obviamente, isto é adjuvante ao tratamento psiquiátrico padrão, não substituto.
4. Ácido Fólico e Reversão de Lesões Pré-Cancerosas Gástricas
A caminho do câncer gástrico, existem lesões pré-malignas bem definidas: gastrite atrófica crônica, metaplasia intestinal e displasia.
Historicamente, consideradas praticamente irreversíveis. Mas a evidência recente é mais otimista.
A Meta-análise
Uma meta-análise publicada no BMC Gastroenterology (2022) consolidou dados de múltiplos ensaios clínicos randomizados sobre o papel do ácido fólico na reversão de lesões pré-cancerosas gástricas (LPC).
• Atrofia mucosa gástrica: Ácido fólico produziu efeito positivo significativo (RR: 1,61; IC 95%: 1,07-2,41)
• Metaplasia intestinal: Reversão documentada (RR: 1,77; IC 95%: 1,32-2,37)
• Sintomas: Taxa de ineficácia de apenas 32% (RR: 0,32; IC 95%: 0,21-0,48)
Dosagem e Duração Ótimas
O benefício foi mais pronunciado quando:
- Dose: 20-30 mg/dia
- Duração: 3-6 meses de tratamento contínuo
- Efeito mais óbvio: Após 3 meses com dose de 30 mg/dia
Mecanismo Proposto
O ácido fólico afeta múltiplas vias relevantes à carcinogênese gástrica:
- Integridade cromossômica: Reduz quebras de DNA e hipometilação
- Proliferação celular descontrolada: Regula ciclo celular
- Níveis de gastrina e pepsina: O folato pode influenciar os marcadores secretórios relacionados à metaplasia
Implicações Clínicas
Pacientes com achados endoscópicos de gastrite atrófica, metaplasia intestinal ou displasia baixa (especialmente se H. pylori foi erradicado) podem ser candidatos a trial de suplementação com ácido fólico 20-30 mg/dia durante 3-6 meses, com reevaluação endoscópica e histológica.
5. Ácido Fólico e Homocisteína: Prevenção de Eventos Cardio e Cerebrovasculares
A história da homocisteína como marcador de risco cardiovascular tem nuances. Vamos destrinchá-la.
A Associação Observacional
Múltiplos estudos epidemiológicos estabelecem a correlação entre homocisteína elevada (hiperhomocisteinemia) e:
- Infarto agudo do miocárdio
- Acidente vascular cerebral (AVC)
- Trombose venosa
O mecanismo é bem estabelecido: homocisteína danifica o endotélio, promove oxidação de LDL, ativa coagulação e induz inflamação.
O Papel do Ácido Fólico
O ácido fólico reduz homocisteína sérica de forma dose-dependente. Estudos mostram:
- Suplementação com ácido fólico reduz homocisteína em média 27% em pacientes com histórico de infarto
Porém, aqui vem o ponto crucial: reduzir homocisteína com ácido fólico não necessariamente previne eventos cardio/cerebrovasculares.
Grandes ensaios clínicos randomizados como VISP (Vitamin Intervention for Stroke Prevention) e HOPE-2 testaram isto diretamente: embora reduzissem homocisteína efetivamente, não houve redução significativa de eventos recorrentes de infarto ou AVC comparado a placebo.
O Paradoxo e a Interpretação
Isto é frequentemente citado como “fracasso” da terapia com folato. Mas há interpretações alternativas:
- Homocisteína pode ser marcador, não causa: A elevação de homocisteína pode refletir outro problema subjacente (déficit B12, MTHFR polimorfismos, doença renal crônica) que a simples redução de homocisteína não corrige.
- Deficiência de B12 mascarada: Doses altas de ácido fólico podem mascarar deficiência de B12, permitindo que anemia perniciosa melhore hematologicamente enquanto manifestações neurológicas progridem — um risco bem documentado.
- Populações com doença estabelecida: Pacientes com histórico de infarto prévio podem ter dano endotelial irreversível; prevenir novos eventos é mais desafiador do que prevenção primária.
Implicações Clínicas
Para prevenção primária em pacientes sem doença cardiovascular prévia, especialmente com hiperhomocisteinemia, a estratégia é razoável: ácido fólico 5-10 mg/dia + B12 + B6, com monitoramento de homocisteína.
Para prevenção secundária (pós-infarto, pós-AVC), o benefício é menos claro, e não deve substituir terapias baseadas em evidências (estatinas, antiplaquetários, controle de PA, etc).
6. Ácido Fólico e Abortos de Repetição
A perda recorrente da gravidez (PRG) afeta 1-3% de mulheres em idade reprodutiva. As causas são múltiplas, mas hiperhomocisteinemia é um fator reconhecido.
A Evidência
Uma série de estudos demonstrou:
- Homocisteína elevada (jejum > 18,3 μmol/L) foi fator de risco para perda precoce recorrente de gravidez (OR: 3,6-6,4 dependendo da população; IC 95%: 1,2-24,3)
- Folato sérico baixo (< 8,4 nmol/L) também aumentou risco (OR: 2,1-3,2)
- Relação dose-resposta: Quanto maior a concentração de folato sérico, menor o risco de perda recorrente da gravidez
Efeito da Suplementação
Mulheres com perda recorrente da gravidez e hiperhomocisteinemia que receberam suplementação com:
- Ácido fólico 5 mg/dia
- Vitamina B12 1000 μg/dia (ou IM)
- Vitamina B6 40 mg/dia
Durante 2-3 meses para normalização de homocisteína, seguida de continuação durante a gravidez, demonstraram redução significativa em eventos de perda gestacional recorrente.
Um pequeno estudo de 16 pacientes com mutação MTHFR C677T e perda recorrente da gravidez , usando metilfolato 5 mg/dia + B6 + B12, documentou redução de homocisteína de 19,4 ± 5,3 para 6,9 ± 2,2 μmol/L, com 7 mulheres concebendo e completando gestações com sucesso durante um ano de acompanhamento.
Implicações Clínicas
Mulheres com histórico de 2 ou mais perdas gestacionais inexplicadas devem ser avaliadas para:
- Homocisteína sérica (jejum)
- Folato sérico
- Vitamina B12
- Idealmente, genotipar MTHFR C677T e A1298C
Se hiperhomocisteinemia ou hipofagia estiverem presentes, suplementação agressiva com folato (5-10 mg) + B12 é racional, idealmente iniciando na fase pré-conceptual.
Ácido Fólico: Via Oral Versus Endovenosa
Uma pergunta frequente em consultório: “Doutor, não seria melhor tomar o ácido fólico intravenoso?”
A resposta, baseada em evidência, é: não, na maioria dos casos.
Por Que Oral é Preferida
- Biodisponibilidade: Ácido fólico oral tem absorção praticamente completa nas doses fisiológicas (1-30 mg/dia). A biodisponibilidade é > 90% quando a dose não é excessivamente alta.
- Custo: Oral é significativamente mais barato.
- Conveniência: Paciente auto-administra, sem necessidade de consultas para injeções.
- Segurança: Menos efeitos adversos. Administração IV/IM carrega risco de reações de hipersensibilidade, lesão local (se IM), e, em preparações antigas com benzil álcool, riscos em neonatos.
- Eficácia: Todos os estudos que documentamos — redução de suicídio, melhora de NAFLD, reversão de lesões gástricas — usaram ácido fólico oral. Não há evidência de superioridade de forma IV/IM para nenhuma dessas aplicações.
Quando Usar Via Endovenosa
A via parenteral (IM, IV, SC) é reservada para situações específicas:
- Malabsorção grave: Doença de Crohn com envolvimento duodenal, espru tropical, doença celíaca refratária
- Pós-cirurgia bariátrica com malabsorção comprovada (bypass gástrico com síndrome de dumping/malabsorção severa)
- Incapacidade de via oral: Pacientes inconscientes, com traqueostomia, ou em ventilação mecânica
- Anemia megaloblástica grave com sintomas neurológicos (emergência)
- Pacientes em nutrição parenteral total (TPN)
Nestas situações, a dose recomendada é até 1 mg/dia, frequentemente IM (melhor tolerância local que IV pura), às vezes 2-3x/semana para manutenção após carga.
Biodisponibilidade: Detalhes Técnicos
Um estudo farmacocinético em suínos comparou vias:
- Oral, dose alta (50 mg/kg): Biodisponibilidade F = 0,01 (muito baixa)
- Intramuscular: Biodisponibilidade F = 0,95 (praticamente completa)
Porém, isto é clinicamente relevante apenas em doses muito altas. Nas doses fisiológicas (1-30 mg), a biodisponibilidade oral é completa e não há “fenômeno flip-flop” que prejudique a absorção.
Recomendação Prática
Use oral como primeira linha para todas as aplicações preventivas mencionadas neste artigo. Reserve parenteral para os cenários específicos listados acima.
Segurança e Efeitos Adversos
Ácido fólico é geralmente bem tolerado. Mas há pontos importantes:
- Mascaramento de deficiência B12: Doses > 0,4-1 mg/dia podem mascarar anemia perniciosa. Sempre dosar B12 antes de iniciar folato em altas doses.
- Raro: Reações alérgicas (mais com forma IV)
- Interações: Reduz eficácia de anticonvulsivantes (fenitoína, valproato); reduz absorção de vários antibióticos
- Segurança em gravidez: Ácido fólico é seguro e recomendado. Doses até 5 mg/dia não têm efeitos teratogênicos documentados.
- Toxicidade por excesso: Extremamente rara, pois folato é hidrossolúvel e excretado em urina
Conclusão
O ácido fólico deixou de ser um nutriente “de gestantes” para se revelar uma ferramenta multifacetada em medicina preventiva e integrativa.
As evidências apresentadas neste artigo demonstram seu papel em condições tão diversas quanto NAFLD, transtornos do humor, neoplasia gástrica e complicações obstétricas.
As aplicações clínicas dependem de individualização: nem todo paciente precisa tomar folato, mas quando há marcadores de deficiência (folato sérico baixo), hiperhomocisteinemia, ou indicações específicas mencionadas, a suplementação oral é custo-efetiva, segura e baseada em evidência.
A via endovenosa permanece um recurso importante, mas reservado para cenários de malabsorção grave ou impossibilidade de via oral. Para a prática ambulatorial de medicina preventiva, oral é a abordagem padrão.
A medicina integrativa e preventiva não abandona a lógica médica tradicional: ela a refina com ferramentas que têm risco-benefício favorável e base científica sólida. O ácido fólico é um desses exemplos paradigmáticos.
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