Açúcar em Excesso: Efeitos Metabólicos, Inflamação e Saúde.

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Açúcar em excesso: impactos metabólicos, inflamação e risco cardiovascular

O consumo excessivo de açúcar adicionado é um dos principais desafios de saúde pública da atualidade. Embora o açúcar faça parte da alimentação humana há séculos, a quantidade e a frequência com que ele é consumido hoje são biologicamente inéditas, com efeitos claros sobre o metabolismo, o sistema cardiovascular e a saúde a longo prazo.

Neste artigo, explico de forma objetiva e baseada em evidências como o açúcar age no organismo, por que ele está associado à inflamação crônica e qual sua relação com resistência à insulina, obesidade abdominal e doenças metabólicas.


Quanto açúcar a população consome atualmente?

Estudos populacionais mostram que o consumo médio de açúcar adicionado ultrapassa amplamente as recomendações médicas. Em países ocidentais, a ingestão diária gira em torno de 60 a 70 gramas por dia, o equivalente a aproximadamente 15 a 17 colheres de chá.

De acordo com a American Heart Association, os limites considerados seguros são de até 36 g/dia para homens e 24 g/dia para mulheres, valores frequentemente excedidos na prática clínica (AMERICAN HEART ASSOCIATION, 2009).


Açúcar e metabolismo: não é só uma questão de calorias

Um erro comum é pensar que o açúcar causa danos apenas por aumentar o consumo calórico. A ciência mostra que o problema vai além das calorias e envolve a forma como diferentes açúcares são metabolizados.

Mesmo mantendo o total calórico diário semelhante, dietas ricas em açúcar adicionado estão associadas a:

  • Aumento de gordura visceral

  • Elevação de triglicerídeos

  • Resistência à insulina

  • Maior risco de esteatose hepática (fígado gorduroso) –  (STANHOPE, 2016).

Isso ocorre porque o metabolismo do açúcar, especialmente da frutose, sobrecarrega vias hepáticas específicas.

Açúcar em excesso: o que faz ao seu corpo | CUF


Tipos de açúcar e seus efeitos no organismo

Glicose

É a principal fonte de energia celular. Eleva a glicemia e estimula a liberação de insulina. Em quantidades adequadas e associada a fibras, é bem tolerada.

Frutose

Metabolizada predominantemente no fígado. Em excesso, favorece:

  • Produção de triglicerídeos

  • Acúmulo de gordura hepática

  • Alterações no perfil lipídico  (LIM et al., 2010).

Sacarose

O açúcar de mesa tradicional, formado por glicose + frutose. O problema não é sua composição isolada, mas:

  • Alta concentração

  • Ausência de fibras

  • Facilidade de consumo excessivo

Lactose

Açúcar natural do leite. Parte da população apresenta redução da produção de lactase ao longo da vida, o que pode gerar sintomas gastrointestinais, mas isso não caracteriza intolerância universal.


Índice glicêmico e carga glicêmica: conceitos importantes

O índice glicêmico (IG) indica a velocidade com que um alimento eleva a glicemia, mas não considera a quantidade ingerida. Por isso, a carga glicêmica é um parâmetro mais útil na prática clínica.

Alimentos naturais, mesmo com IG mais alto, costumam ter baixa carga glicêmica devido à presença de fibras, água e micronutrientes — situação muito diferente de bebidas açucaradas e ultraprocessados.


Açúcar e inflamação crônica:

A inflamação é um mecanismo normal do organismo. O problema surge quando ela se mantém de forma persistente, caracterizando a inflamação crônica de baixo grau, associada a diversas doenças.

O consumo frequente de açúcar adicionado está relacionado a:

  • Aumento de marcadores inflamatórios

  • Piora da sensibilidade à insulina

  • Maior risco cardiovascular

Esse efeito é potencializado quando associado a sedentarismo, excesso de gordura corporal, estresse crônico e sono inadequado.


Resistência à insulina: o elo central:

A resistência à insulina é um dos principais mecanismos pelos quais o açúcar impacta negativamente a saúde. Ela precede:

  • Pré-diabetes

  • Diabetes tipo 2

  • Doença cardiovascular

  • Síndrome metabólica

Além disso, a hiperglicemia frequente favorece a formação dos produtos finais de glicação avançada (AGEs), associados a envelhecimento precoce, rigidez vascular e inflamação sistêmica.

Esteatose Hepática - Fígado Gorduroso


Açúcar, cérebro e comportamento alimentar:

O açúcar ativa o sistema de recompensa cerebral, com liberação de dopamina. A exposição repetida pode levar à dessensibilização desse sistema, exigindo quantidades maiores para gerar a mesma sensação de prazer.

Esse mecanismo ajuda a explicar comportamentos de compulsão alimentar, embora o açúcar não seja classificado como droga do ponto de vista médico. O termo mais adequado é comportamento alimentar compulsivo.


Açúcar nos rótulos: atenção aos diferentes nomes:

O açúcar pode aparecer nos rótulos sob diversas denominações, como:

  • Maltodextrina

  • Xarope de milho

  • Açúcar de coco

  • Concentrado de suco de fruta

  • Melado e xaropes

Apesar dos nomes variados, muitos têm efeito metabólico semelhante, especialmente quando consumidos de forma frequente.


Conclusão médica:

O açúcar não precisa ser demonizado, mas o consumo excessivo e crônico de açúcar adicionado está claramente associado a alterações metabólicas relevantes, incluindo inflamação crônica, resistência à insulina e maior risco cardiovascular.

A melhor estratégia não é a exclusão absoluta, mas o consumo consciente, a leitura adequada de rótulos e a priorização de alimentos naturais e minimamente processados.

10 Alimentos Recomendados na Dieta para Gordura no Fígado


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REFERÊNCIAS:

AMERICAN HEART ASSOCIATION. Dietary sugars intake and cardiovascular health. Circulation, Dallas, v. 120, n. 11, p. 1011–1020, 2009. DOI: 10.1161/CIRCULATIONAHA.109.192627.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guideline: sugars intake for adults and children. Geneva: World Health Organization, 2015. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789241549028. Acesso em: 17 jan. 2026.

STANHOPE, K. L. Sugar consumption, metabolic disease and obesity: the state of the controversy. Critical Reviews in Clinical Laboratory Sciences, London, v. 53, n. 1, p. 52–67, 2016. DOI: 10.3109/10408363.2015.1084990.

MALIK, V. S.; HU, F. B. Sugar-sweetened beverages and cardiometabolic health. Journal of the American College of Cardiology, New York, v. 66, n. 14, p. 1615–1624, 2015. DOI: 10.1016/j.jacc.2015.08.018.

LIM, J. S. et al. The role of fructose in the pathogenesis of NAFLD and the metabolic syndrome. Nature Reviews Gastroenterology & Hepatology, London, v. 7, n. 5, p. 251–264, 2010. DOI: 10.1038/nrgastro.2010.41.

SOFTIC, S. et al. Dietary sugars alter hepatic fatty acid oxidation via transcriptional and epigenetic mechanisms. Nature Metabolism, London, v. 1, n. 7, p. 692–706, 2019. DOI: 10.1038/s42255-019-0081-6.

AEBERLI, I. et al. Moderate amounts of fructose consumption impair insulin sensitivity in healthy young men. Diabetes Care, Arlington, v. 36, n. 1, p. 150–156, 2013. DOI: 10.2337/dc12-0540.

LIU, S. et al. Added sugar intake is associated with inflammation in U.S. adults. American Journal of Clinical Nutrition, Oxford, v. 108, n. 4, p. 697–707, 2018. DOI: 10.1093/ajcn/nqy175.

URIBARRI, J. et al. Advanced glycation end products in foods and a practical guide to their reduction in the diet. Journal of the American Dietetic Association, New York, v. 110, n. 6, p. 911–916, 2010. DOI: 10.1016/j.jada.2010.03.018.

VOLKOW, N. D.; WISE, R. A.; BALER, R. The dopamine motive system: implications for drug and food addiction. Nature Reviews Neuroscience, London, v. 18, n. 12, p. 741–752, 2017. DOI: 10.1038/nrn.2017.130.

LENOIR, M. et al. Intense sweetness surpasses cocaine reward. PLoS ONE, San Francisco, v. 2, n. 8, e698, 2007. DOI: 10.1371/journal.pone.0000698.

Dr. Roberto Franco do Amaral – Especialista em Medicina Laboratorial CRM 111310

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