(Last Updated On: 07/06/2017)

O que é endometriose?

A endometriose é uma doença que tem como característica a presença do endométrio (tecido que reveste o interior do útero) fora da cavidade uterina, em outros órgãos da pelve como tubas uterinas, ovários, intestinos e bexiga. O endométrio é uma mucosa que reveste a parede interna do útero, sensível às alterações do ciclo menstrual, e onde o óvulo depois de fertilizado se implanta. Se não houve fecundação, boa parte do endométrio é eliminada durante a menstruação. O que sobra volta a crescer e o processo todo se repete a cada ciclo. Portanto, a endometriose é uma afecção inflamatória provocada por células do endométrio que, em vez de serem expelidas, migram no sentido oposto e caem nos ovários ou na cavidade abdominal, onde voltam a multiplicar-se e a sangrar. A endometriose é uma doença crônica que regride espontaneamente com a menopausa, em razão da queda na produção dos hormônios femininos. Segundo informações da Associação Brasileira de Endometriose, entre 10% e 15% das mulheres em idade reprodutiva (13 a 45 anos) podem desenvolvê-la e ocorre entre 25 e 40% das mulheres inférteis.

Sintomas da endometriose

A endometriose pode ser assintomática. Quando os sintomas aparecem, merecem destaque:

* Dismenorreia – cólica menstrual que, com a evolução da doença, aumenta de intensidade e pode incapacitar as mulheres de exercerem suas atividades habituais;

* Dispareunia – dor durante as relações sexuais;

* Dor e sangramento intestinais e urinários durante a menstruação;

* Infertilidade.

 

Diagnóstico da endometriose

A endometriose ainda é uma doença difícil de diagnosticar por meio do exame físico, ou seja, realizado durante a consulta ginecológica de rotina. Dessa forma, os exames de imagem são mais adequados para indicar a possível existência do problema, que será confirmada posteriormente por meio de exames laboratoriais específicos.

Entre os exames de imagem que podem sinalizar a endometriose, destacam-se:

Ultrassonografia transvaginal – Procedimento de menor custo, que permite a identificação de endometriomas, aderências pélvicas e endometriose profunda.

Ressonância magnética – Exame mais caro, a ressonância magnética apresenta melhores taxas de sensibilidade e especificidade na avaliação de pacientes com endometrioma e endometriose profunda.

Para identificar a existência da endometriose, outros exames complementares ainda podem ser solicitados pelo médico, como a ultrassonografia transretal, a ecoendoscopia retal, tomografia computadorizada e dosagem de marcadores séricos da endometriose. Após a identificação de alguma alteração, o médico poderá optar por realizar uma biópsia da lesão encontrada, de modo a confirmar o diagnóstico. Essa avaliação será realizada por meio de exames chamados laparoscopia e laparopotomia.

Estresse oxidativo e endometriose

Alguns autores sugeriram a possibilidade de a endometriose ser uma doença originada ou associada ao estresse oxidativo. Isto porquê no sistema reprodutor feminino, diversos mecanismos biológicos conduzem ao desempenho harmônico das suas funções. Os radicais livres são importantes moduladores dos processos fisiológicos do trato reprodutor feminino. Baixas concentrações de espécies reativas de oxigênio (EROs) têm importância na modulação de inúmeros processos fisiológicos do trato reprodutivo fe­minino, como a maturação oocitária, a atresia folicular, a função do corpo lúteo, a interação gamética, a fertilização, o desenvolvimento e a implantação embrionária. Porém, quando há um desequilíbrio entre os agentes pró-oxidantes (radicais livres) e os mecanismos antioxidantes de defesa do organismo, pode ocorrer o estresse oxidativo, que tem sido envolvido na etiopatogênese de diversas doenças reprodutivas e da infertilidade.

Os lipídios oxidados, ao serem metabolizados, geram produtos reconhecidos como corpos estranhos, desencadeando respostas antigênicas com consequente produção de anticorpos. O estresse oxidativo também danifica células mesoteliais (presentes nas cavidades pleural, peritoneal e pericárdica, e ainda na túnica albugínea do ovário) e pode induzir o aparecimento de sítios de adesão para células endometriais, favorecendo o desenvolvimento e a progressão dos focos de endometriose.

Estilo de vida e endometriose

Existem indicações na literatura que relacionam a endometriose com a falta de atividade física, exposição a substâncias tóxicas, baixa ingestão de vitaminas e fi­bras. A prática de exercícios diários melhora o sistema imunológico e por consequência, o corpo elimina com maior facilidade os coágulos de endometriose. Outro fator importante relacionado à atividade física é a diminuição da secreção do estro­gênio, o qual favorece a progressão da doença. Uma vida estressante e agitada pode ser fator de risco para o desenvolvimento da doença. O consumo de álcool e a baixa atividade física foram os maiores preditores do desenvolvimento de endometriose num grande estudo prospectivo realizado por Heiler e colaboradores em 2007. O uso de cigarro atrapalha a maturação dos óvulos e é responsável por 13% dos casos de infertilidade feminina. Há dados empíricos que mos­tram uma redução significativa no risco de desenvolver a doença em pessoas com um alto consumo de verduras verdes e frutas. Além disso, foi mostrado que antioxidantes, como vitamina C e A podem evitar a evolução de pro­cessos que prejudicam o endométrio.

A boa notícia é que, além da prevenção, a endometriose também tem cura, mas depende muito do seu tratamento. A endometriose é uma doença que pode ser tratada com cirurgicamente ou tratamentos hormonais. Mas é claro que tudo depende do estágio em que a doença se encontra. Uma das formas mais utilizadas para o diagnóstico e determinação do estágio em que a doença se encontra é a dosagem dos níveis séricos de marcadores da endometriose.

Marcadores séricos da endometriose

Muitos marcadores séricos e peritoneais têm sido estudados para o diagnóstico da endometriose. Dentre eles, o marcador mais utilizado com este propósito é o CA-125. O CA-125 (cancer antigen 125) é um marcador tumoral que se mede no sangue podendo estar presente em alguns tipos de câncer, todavia não é específico, estando relacionado com outras enfermidades (cirrose, endometriose, hepatite, pancreatite, cistos no ovário) ou até mesmo presente em pessoas sadias. Este exame deve ser realizado do primeiro ao terceiro dia do ciclo menstrual, servindo como marcador da endometriose avançada e/ou profunda quando apresentar-se em valores superiores a 100 U/mL. A dosagem da Proteína Sérica Amiloide-A (SAA) na mesma fase pode, quando em níveis superiores a 50 μg/mL em associação com CA-125 superior a 100 UI/mL, predizer comprometimento intestinal.

A produção de radicais livres pode promover a peroxidação lipídica dos ácidos graxos poli-insaturados presentes nas membranas celulares, com produção de hidroxiperóxidos lipídicos, aldeídos e isoprostanos. O malondialdeído (MDA) é um desses produtos secundários da peroxidação lipídica que, por ser um produto estável, pode ser utilizado como medida cumulativa desse processo. Apesar dos dados serem controversos, alguns autores evidenciaram aumento significativo das concentrações de peróxidos lipídicos no fluido peritoneal de portadoras de endometriose pélvica. A vitamina E é um dos principais antioxidantes não-enzimáticos, podendo tanto bloquear o início da peroxidação lipídica como inibir a sua propagação. Em estudo recentemente publicado, evidenciaram-se menores níveis séricos de vitamina E em portadoras de infertilidade relacionada à endometriose. A glutationa, principal componente sulfidril não-proteico em células de mamíferos, desempenha um papel fundamental na neutralização de peróxidos e na proteção celular contra o estresse oxidativo. Uma das atividades antioxidantes da glutationa consiste em eliminar, indiretamente, o tocoferol oxidado, importante para a reciclagem e manutenção de níveis fisiológicos de vitamina E, essenciais para o combate ao estresse oxidativo.

A avaliação do total de hidroperóxidos em uma dada amostra permite uma análise indireta da produção de espécies reativas que antecede tanto o maior consumo de antioxidantes não-enzimáticos como a vitamina E e a glutationa, por exemplo, a detecção de produtos do dano oxidativo, como a peroxidação lipídica. Apesar de existirem evidências sugerindo presença de estresse oxidativo nos sítios dos implantes pélvicos endometriais, pouco se sabe sobre o status oxidativo sistêmico em portadoras de infertilidade relacionada à endometriose. Da mesma maneira, muito pouco é conhecido sobre a associação entre estadiamento da doença e os marcadores sistêmicos de estresse oxidativo.

Neste sentido, um trabalho realizado por pesquisadores do Laboratório de Ginecologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto e Departamento de Medicina da Universidade Federal de São Carlos  e publicado em 2010 na Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, objetivou a  comparação de quatro marcadores séricos de estresse oxidativo entre pacientes inférteis com endometriose e controles, aferidos na fase folicular precoce do ciclo menstrual, e avaliação da associação destes marcadores com o estadiamento (grau de disseminação) da doença. Os resultados obtidos permitiram os pesquisadores concluírem que foi evidenciada uma associação positiva entre infertilidade relacionada à endometriose, avanço do estadiamento da doença e aumento dos níveis séricos de hidroperóxidos, sugerindo aumento da produção de espécies reativas em portadoras de endometriose. Esses dados, associados à redução dos níveis séricos de vitamina E e de glutationa, sugerem a ocorrência de estresse oxidativo sistêmico em portadoras de infertilidade associada à endometriose.

Apesar da presença de estresse oxidativo sistêmico em portadoras de infertilidade relacionada à endometriose, como evidenciado neste estudo, observou-se que o consequente consumo de antioxidantes, como a glutationa e a vitamina E, parecem prevenir a ocorrência de peroxidação lipídica sistêmica, uma vez que foram observados níveis séricos de malondialdeído similares nas portadoras de infertilidade relacionada à endometriose e nas pacientes controles.

A peroxidação lipídica pode ser  avaliada pela quantificação de malondialdeído no sangue.

 

Endometriose e Progesterona

A ação da progesterona é crucial para diminuir a inflamação no endométrio e falta da ligação de progesterona com seu receptor  resulta em um fenótipo pró-inflamatório. Inversamente, a inflamação crônica pode induzir um estado resistente à progesterona. Este  hormônio melhorou a progressão da endometriose por inibição da proliferação celular, inflamação e neovascularização segundo estudo publicado na PLOS ONE em 2016.

Referências

Marcadores séricos de estresse oxidativo em mulheres inférteis com endometriose

http://www.scielo.br/pdf/rbgo/v32n6/v32n6a05.pdf

Avaliação do nível sérico de prolactina e CA 125 como marcadores diagnósticos de endometriose

 http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/26117

Lipid peroxidation and vitamin E in serum and follicular fluid of infertile women with peritoneal endometriosis submitted to controlled ovarian hyperstimulation: a pilot study.

http://www.fertstert.org/article/S0015-0282(07)03958-1/abstract

The importance of having high glutathione (GSH) level after bovine in vitro maturation on embryo development effect of beta-mercaptoethanol, cysteine and cystine.

http://www.theriojournal.com/article/S0093-691X(99)00278-2/abstract

Oxidative stress and reactive oxygen species.

https://www.karger.com/Article/Abstract/85686

A vivência de infertilidade e endometriose: pontos de atenção para profissionais de saúde

http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?pid=S1645-00862010000200004&script=sci_arttext&tlng=en

ENDOMETRIOSE

https://drauziovarella.com.br/mulher-2/endometriose/

ENDOMETRIOSE VESICAL: ASPECTOS DIAGNÓSTICOS E TERAPÊUTICOS

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-42302001000100028&script=sci_arttext&tlng=pt

Progesterone Alleviates Endometriosis via Inhibition of Uterine Cell Proliferation, Inflammation and Angiogenesis in an Immunocompetent Mouse Model.

http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0165347

Progesterone resistance in endometriosis: origins, consequences and interventions. 

http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/aogs.13156/abstract;jsessionid=1A206141781D6FF1F4FA4658D1D5FFFF.f03t03

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2 Comentários

  1. said disse:

    gostei muita dos esclarecimentos obrigado

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